O Dia da Infância, comemorado hoje, permite uma reflexão sobre o modo como a sociedade anda tratando as pessoas nessa faixa etária. Para a psicóloga Maria Rita Zoega Soares, professora do Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento da Universidade Estadual de Londrina (UEL), as crianças de hoje vivenciam mais momentos de estresse, em pressões vão desde a escola até a violência descontrolada, passando pela incapacidade dos pais em oferecer soluções porque não passaram por essas experiências.
A professora argumenta que os adultos têm dificuldades em lidar com crianças que assistem televisão demais e/ou que têm seu erotismo estimulado precocemente pela mídia. As consequências, no primeiro caso, podem ser adolescentes que não tiveram suas habilidades desenvolvidas adequadamente e com dificuldades para a vida social, para a qual as brincadeiras de rua são preparativo.
No segundo caso, jovens iniciam cedo sua vida sexual e correm o risco de lidar com problemas como a Aids e a gravidez na adolescência. ''As emissoras de televisão deveriam ter uma assessoria para serem mais prudentes na hora de lidar com crianças'', opina a professora. Outros problemas decorrem do fato de que cada vez mais cedo se exige que as crianças pensem sobre seu futuro.
Segundo ela, as crianças aprendem palavrões como ''vestibular'' e ''faculdade'' ainda no Ensino Fundamental, e se acostumam a ter o tempo livre totalmente ocupado por atividades paralelas, como aulas de idiomas, esportes, informática e outros. ''A criança fica sem tempo para si e já cedo é obrigada a ter um bom desempenho escolar. Não se valoriza o que ela pode fazer bem além dos estudos'', explica Maria Rita. ''Os educadores também precisam rever seus conteúdos. Eles devem inserir a criança na escola e não obrigá-la a se adaptar''.
A questão da violência, por sua vez, atinge crianças de todas as classes sociais. As de famílias mais ricas interiorizam a paranóia de ser alvo da criminalidade. ''Os pais tentam proteger os filhos vivendo em condomínios fechados, contratando vigias para acompanhar as crianças durante todo o dia e só permitindo que elas vão a lugares extremamente seguros. É claro que é importante se preocupar com a violência, mas uma pessoa que cresce protegida demais pode ter dificuldades quando tiver que lidar com outras realidades'', diz a professora.
Para as crianças que moram na periferia, a situação é ainda mais trágica: aprendem desde cedo a viver na marginalidade econômica e, muitas vezes, vêem no tráfico uma opção atraente. ''Nestas regiões, o Estado não cumpre sua função. Hoje, em Londrina, são 20 mil crianças fora da pré-escola. No futuro, elas podem estar roubando e fumando crack'', afirma Rita Bastos, presidente do Conselho Tutelar 3 de Londrina.
Ela é contrária à redução da idade penal (18 para 16 anos), polêmica que crepita atualmente no País. ''Estamos vendo os sintomas e não as causas. Os educandários já não ressocializam, então é temeroso transferir os jovens que lá estão para o sistema penitenciário, que é ainda pior. Não tem segredo. É preciso investir em saúde, educação básica, creches, primeiro emprego. Este governo ainda não apresentou uma proposta clara para a infância'', critica.

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