O des­cui­do dos adul­tos não é o fa­tor que, so­zi­nho, ex­pli­ca as ocor­rên­cias de in­to­xi­ca­ções de crian­ças no am­bien­te do­més­ti­co. A si­tua­ção é mui­to ­mais com­ple­xa do que pa­re­ce. Se­gun­do o Cen­tro de Con­tro­le de In­to­xi­ca­ções (CCI) do Hos­pi­tal Uni­ver­si­tá­rio (HU) de Ma­rin­gá os ris­cos de aci­den­tes pe­ri­go­sos – às ve­zes fa­tais – nos pri­mei­ros ­anos de vi­da são po­ten­cia­li­za­dos por di­ver­sas si­tua­ções. En­tre ­elas es­tão o fá­cil aces­so às so­bras que se acu­mu­lam nas ga­ve­tas e a for­ma de apre­sen­ta­ção dos me­di­ca­men­tos; a enor­me va­rie­da­de de subs­tân­cias quí­mi­cas que sur­gi­ram nas úl­ti­mas dé­ca­das; de­fi­ciên­cias na fis­ca­li­za­ção; e a reu­ti­li­za­ção de em­ba­la­gens co­muns, co­mo as gar­ra­fas plás­ti­cas de re­fri­ge­ran­tes, por exem­plo.
  As in­to­xi­ca­ções do­més­ti­cas atin­gem tan­to adul­tos quan­to crian­ças, mas os ­mais pe­que­nos – com até qua­tro ­anos – são as ví­ti­mas ­mais fre­quen­tes. No iní­cio da úl­ti­ma se­ma­na, um ca­so trá­gi­co en­vol­veu ­duas ir­mãs de Goioe­rê, que in­ge­ri­ram um in­se­ti­ci­da que es­ta­va guar­da­do em uma gar­ra­fa pet. A me­ni­na de 2 ­anos e ­meio fa­le­ceu pou­cas ho­ras de­pois e a ou­tra, com um ano e ­meio, per­ma­ne­ce in­ter­na­da em es­ta­do gra­ve no HU, em Ma­rin­gá. As crian­ças es­ta­vam sob os cui­da­dos de uma vi­zi­nha.
  A en­fer­mei­ra e coor­de­na­do­ra do CCI de Ma­rin­gá, Mag­da Lú­cia Fe­lix de Oli­vei­ra, ad­ver­tiu que ‘‘em hi­pó­te­se al­gu­ma a cul­pa pe­la in­to­xi­ca­ção de crian­ças de­ve ser im­pu­ta­da ape­nas aos ­pais ou ­responsáveis’’. Pa­ra com­pro­var sua fa­la, ela ci­tou que a maio­ria dos aci­den­tes não acon­te­ce na re­si­dên­cia da crian­ça, mas na ca­sa de ­avós, ­tios e vi­zi­nhos. E a se­rie­da­de da in­to­xi­ca­ção não tem, ne­ces­sa­ria­men­te, re­la­ção com o ­grau de to­xi­ci­da­de das subs­tân­cias, mas sim com o tem­po de ex­po­si­ção e à quan­ti­da­de do pro­du­to.
  Mag­da ex­pli­cou que os aci­den­tes tam­bém se tor­na­ram ­mais co­muns pe­lo fa­to de que ho­je exis­tem qua­tro ve­zes ­mais subs­tân­cias quí­mi­cas do que ha­via 40 ­anos ­atrás. Bas­ta dar uma olha­da rá­pi­da nas gôn­do­las de pro­du­tos de lim­pe­za e hi­gie­ne dos su­per­mer­ca­dos. ‘‘Is­so am­pliou mui­to o con­ta­to com as subs­tân­cias que, mui­tas ve­zes, não vem acom­pa­nha­do dos cui­da­dos ne­ces­sá­rios.’’ Ela apon­tou que ­pior ain­da são os pro­du­tos sa­ni­tá­rios ven­di­dos clan­des­ti­na­men­te em em­ba­la­gens co­nhe­ci­das das crian­ças e com apa­rên­cia e chei­ro de lí­qui­dos co­mo su­cos e io­gur­tes: ‘‘A gar­ra­fa pet é pro­ble­ma mui­to sé­rio em ter­mos de vi­gi­lân­cia sa­ni­tá­ria, por­que mui­tos pro­du­tos quí­mi­cos se pa­re­cem com re­fri­ge­ran­tes, por ­exemplo’’.
  Com as em­ba­la­gens de me­di­ca­men­tos a si­tua­ção é si­mi­lar. As apre­sen­ta­ções de mui­tos com­pri­mi­dos são pa­re­ci­das com ba­las e pas­ti­lhas, o que con­fun­de as crian­ças. Ou­tro pro­ble­ma é que a quan­ti­da­de é qua­se sem­pre ­maior do que a ne­ces­sá­ria pa­ra o tra­ta­men­to e as so­bras aca­bam in­do pa­ra as ga­ve­tas. ‘‘Nos­sa lu­ta é pa­ra que a Agên­cia Na­cio­nal de Vi­gi­lân­cia Sa­ni­tá­ria exi­ja que os fa­bri­can­tes mu­dem as ­embalagens’’, cri­ti­cou a coor­de­na­do­ra do CCI.
  Foi a cor ver­me­lha de uma drá­gea de an­ti­bió­ti­co que ­atraiu o pe­que­no Pe­dro Otá­vio, ho­je com oi­to ­anos, quan­do ele ti­nha qua­tro ­anos. O me­ni­no ­achou ­três uni­da­des no ­chão da ca­sa de um tio e as in­ge­riu. ‘‘Ele fi­cou com os lá­bios bran­cos e dis­se que ti­nha co­mi­do ba­las. Le­vei-o até o hos­pi­tal e foi pre­ci­so fa­zer la­va­gem es­to­ma­cal. Ele fi­cou um dia ­internado’’, con­tou a mãe, Pa­trí­cia Eu­gê­nia, que tem ou­tra fi­lha de 10 me­ses. ‘‘Em ca­sa não dei­xo na­da ao al­can­ce de­les, mas na ca­sa dos ou­tros é di­fí­cil ­controlar’’, ar­gu­men­tou. Com o iní­cio das fé­rias es­co­la­res e ­maior per­ma­nên­cia das crian­ças em ca­sa, os cui­da­dos de­vem ser re­do­bra­dos.

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