Um velho tanque parado não está morto. Qualquer coisa, até mesmo um simples sapo que nele salte, pode devolver-lhe a vida. Foi pensando nisso que a psicopedagoga Neide Portugal resolveu ensinar haicai (uma forma poética de origem japonesa) à pessoas especiais na Escola Especial Pequeno Príncipe (Apae) em Bandeirantes.
Deu certo. Não só alunos de todas as idades aderiram ao estilo poético, como estão até participando de competições. No 4º Concurso Brasileiro Infanto-Juvenil de Haicai (o maior do gênero no País), o limite de idade estipulado em 14 anos restringiu para 12 o número de participantes da Apae, mas, destes, cinco foram agraciados com menções especiais. No último dia 5, os jovens poetas estiveram em São Paulo participando da cerimônia de premiação.
Concorrendo com 3769 crianças do ensino fundamental, o prêmio foi um incentivo para os especiais se aprofundarem ainda mais no assunto. Neide avisa que já está preparando seus pupilos para mais um concurso, desta vez mundial, de haicai.
Outra mudanças apresentadas pelos alunos foram um interesse maior pelos livros e uma melhora na auto-estima de cada um. ''Houve uma mudança de comportamento. Eles estão mais alegres, sentem-se valorizados e demonstram mais vontade e mais interesse pelas coisas'', destaca a assistente social da Apae, Zilda Comegno Marques.
A diretora da instituição, Vera Lúcia Gonçalves, conta que, no começo, ficou bastante apreensiva com a iniciativa. ''Mesmo conhecendo a Neide há bastante tempo, eu me perguntava se nossos alunos seriam capazes, se realmente daria certo'', confessa. Agora, a empolgação na escola é tanta que até os professores começaram a compor os poemas.
Voluntária na escola há apenas quatro meses, dona Neide encontrou em seus alunos um grande potencial, nunca antes explorado. Citando o pensador Piaget, ela explica que as crianças constróem a partir do conhecimento que já possuem. ''O haicai trata essencialmente da natureza. E os especiais, muito observadores, têm conhecimento de tudo o que acontece nela'', afirma, para justificar o sucesso de sua iniciativa.
Através de perguntas relativas a algum tema da natureza, os estudantes buscam em suas lembranças as sensações guardadas a respeito. A fruta no pé, o movimento das sombras, o canto da cigarra cada uma dessas observações é explorada pela educadora, que orienta os alunos na formulação dos versos. ''Eles compõem sozinhos seus poemas. A única diferença com as crianças de escolas tradicionais é a dificuldade na coordenação motora'', compara. Os doze trabalhos enviados para o concurso em São Paulo foram escritos em letra de fôrma e ilustrados pelos próprios alunos.
De acordo com a voluntária, ao buscar na criança as suas experiências pessoais e trabalhar a expressão, ativa-se a parte neuro-sensorial dos alunos. Além disso, o haicai é uma forma de valorizar o potencial dos alunos especiais. ''Inclusão social é isso. Não é só colocar o aluno dentro de uma escola tradicional, mas encontrar uma forma de incluí-lo na sociedade'', ensina.

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