A rotina de crianças ricas ou pobres tem semelhanças. Independente da classe social, a maior parte delas acorda cedo para cumprir uma obrigação: ir para a escola. As coincidências, no entanto, param por aí. O próprio ato de percorrer o trajeto entre a casa e a instituição de ensino pode ser um retrato da desigualdade social do País.
Em Londrina, como em qualquer outra cidade brasileira, muitos estudantes usam ônibus, carros, bicicletas ou caminham para chegar à escola. Mas cada caso guarda suas particularidades. Alguns contam com transporte seguro e confortável, em especial quando os pais têm condições financeiras de bancar o serviço. Outros enfrentam verdadeiras aventuras para poder estudar.
Para um grupo de cerca de dez crianças do Jardim União da Vitória III (Zona Sul de Londrina), percorrer os 500 metros que separam a escola de casa é um desafio diário. As adversidades são inúmeras: mato alto, cobras, aranhas e caramujos por todo o caminho, além do uso da área como ponto para consumo de drogas.
As mães ficam entre a cruz e a espada. Ou enfrentam o íngreme trajeto todos os dias para tentar garantir a segurança dos filhos ou ficam em casa cuidando dos mais novos, com o coração na mão.
''A prefeitura já roçou o mato, mas só lá embaixo. Aqui, nem sobem. Meu irmão compra veneno de vez em quando para diminuir o mato. Eles ficam limpando o Centro, onde não precisa muito, e nós aqui no União ficamos esquecidos'', queixou-se a dona-de-casa Solange Ferreira Mafra, 35 anos.
Dois dos três filhos dela estudam na Escola Municipal Tereza Canhada Bertan. Tanto Isabele Rosa, 7, quanto Isadora Natália, 5, têm de descer o morro em meio ao mato para estudar.
Mas a tranquilidade não chega junto com o asfalto. Na esquina da escola, há dias uma boca de lobo entupida formou uma poça de água que transformou-se numa verdadeira ameaça para os alunos. Para Solange, o risco de aparecimento de focos do mosquito da dengue é iminente.
À tarde, quando o filho Ryan Wesley Silva Santos, 5, desce a ladeira para estudar, a dona-de-casa Rosângela Maria da Silva, 35, não consegue ficar sossegada. ''Os vizinhos contam que já mataram até cobra nesse caminho. Tinha que roçar aqui o quanto antes'', reivindicou.
Acionado pela reportagem, o assessor da Diretoria de Operações da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Olivan Tresse, garantiu uma solução até a Quarta-feira de Cinzas. ''Vamos verificar se o terreno é público ou particular e buscar uma solução rápida, até porque essa situação está prejudicando crianças'', prometeu.
Enquanto aguardam uma solução, os moradores da Rua dos Médicos usam a esperança como arma para driblar os riscos escondidos no meio do matagal. Apesar de ter conseguido as ligações de água e luz há pouco tempo, depois de muita luta, Solange Mafra faz um desabafo, que representa o sentimento de todo um bairro: ''O União da Vitória está esquecido, abandonado.''

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