Crianças carentes lutam para estudar
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domingo, 25 de março de 2001
Érika Pelegrino De Londrina 
Estudar para a maioria das crianças do assentamento São Jorge, zona norte de Londrina, significa vencer distâncias diariamente. Muitos acabam desistindo na metade do caminho, vencidos pelas dificuldades. Os que persistem, levantam todos os dias antes do sol nascer e caminham uma hora até chegar à escola. São quase 100 crianças que caminham em média cinco quilômetros, entre ida e volta da escola, em busca de um futuro sem tantas privações.
Sem uma escola estadual no assentamento, as crianças e adolescentes que têm sorte conseguem vagas em escolas como a José Carlos Pinotti e a Adélia Dionísia Barbosa, que ficam a pouco mais de dois quilômetros e meio do assentamento. Outros só conseguem vaga em escolas de bairros bem mais distantes, como o Parque Ouro Verde.
Só na Escola Estadual José Carlos Pinotti estudam 70 crianças e adolescentes do assentamento. A diretora da escola, Maria Luiza Bastos, conta que até o ano passado estes alunos pegavam carona no transporte municipal que levava as crianças de 1ª à 4ª séries à Escola Municipal Professor Moacyr Camargo Martins, próxima da Pinotti.
Com a construção de uma escola municipal dentro do assentamento, este transporte foi cancelado e os alunos da escola Pinotti ficaram sem carona. Além da distância, as crianças que insistem em estudar são obrigadas a enfrentar ainda o frio, a chuva e a falta de condições econômicas, que os impendem de ter uma boa alimentação, roupas, material escolar.
Maria Luiza Bastos afirma que muitos não conseguem vencer tantas dificuldades e desistem dos estudos. No ano passado, a escola registrou uma evasão escolar de 12,5%. Os motivos são falta de transporte e de condições econômicas, afirma a diretora. Hoje, o que segura muito as crianças na escola ainda é a alimentação que, na maioria das vezes, é a única do dia, complementa.
Nelson dos Santos, 14 anos, é um dos que desistiu e há dois anos parou de estudar. A mãe, Maria dos Prazeres dos Santos, 44 anos, conta que com renda mensal de R$ 150,00, três filhos um de dois anos com síndrome de Down e uma neta, não tem como pagar passe de ônibus para o filho estudar. Se for a pé, ele tem que levantar às 5h30. Acabou largando, diz.
George William Leonel de Carvalho, 15 anos enfrenta esta rotina desde os 11 anos, levantando às 5h30 para chegar na Escola Estadual Adélia Dionísia Barbosa às 7h30. Nunca pensei em disitir. Quero ter um futuro, afirma. O amor à música é o grande incentivo de George. Quero fazer uma faculdade de música, diz. Sua mãe, Olivina Leonel, conhecida como Regina, conta que o filho demonstra interesse por música desde os quatro anos. Há pouco mais de um ano começou a aprender, sozinho, violão e teclado.
George divide seu tempo entre a escola de manhã, a Guarda Mirim, à tarde, onde faz curso profissionalizante com o qual pretende trabalhar e pagar sua faculdade, e à noite dedica-se ao violão, emprestado de um padre, e ao teclado que a mãe comprou por um preço irrisório.
Maria de Lourdes Silva Rodrigues também está apreensiva com os estudos da filha Lígia, de 10 anos. A garota passou para a 5ª série, está adiantada nos estudos, mas corre o risco de ficar sem estudar. A mãe só conseguiu vaga em uma escola no Parque Ouro Verde, bem mais distante que as escolas Pinotti e Adélia Dionísia.
A pé eu não posso deixá-la ir. Ela ainda é pequena e é muito longe, afirma. Desempregada, dinheiro para passes é um luxo ao qual Lourdes não pode se dar. Minha esperança é conseguir vaga ou na escola Pinotti ou na Adélia. Aí eu mesma a levo a pé, afirma.


