A expressão ‘‘dá um trocadinho’’, própria de meninos que moram ou passam a maior parte do tempo na rua, por mais cruel que seja de se ouvir, parece ter se institucionalizado. Expressão corrente da pobreza de muitos brasileiros, ouvida até com naturalidade por várias pessoas, a frase saiu da periferia e foi copiada por índios caingangues, em Londrina.
Muitas das crianças caingangues que ficam alojadas com os pais no Centro Cultural Ware (criado para hospedar os índios que estão de passagem pela cidade), frequentemente são vistas em sinaleiros, próximas a supermercados, pedindo também o seu ‘‘trocadinho’’, em um português acanhado. Algumas pessoas que circulam em automóveis dão moedas e outras preferem fechar o vidro. Comodismo ou incômodo ante a visão desses brasileiros legítimos, o que sentem as pessoas quando são os índios que pedem dinheiro?
Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), existem 1,2 mil caingangues na Reserva Apucaraninha, em Tamarana (62 quilômetros ao sul de Londrina). Na reserva, a mudança de hábito é grande, mas é na cidade que o contato com o ‘‘branco’’ é mais visível. Séculos de exploração fizeram que muitos grupos indígenas perdessem a identidade, o que se reflete nos vícios que muitos deles adquirem. O alto índice de alcoolismo entre os índios, apesar dos esforços de projetos desenvolvidos por antropólogos e sociólogos, é indicador de que o contato com a sociedade ocidental foi uma corda que arrebentou. E do lado fraco, que é o lado do índio subjugado.
Mais cruel do que ouvi-los pedindo trocados, principalmente hoje, véspera do Dia do Índio, é vê-los despojados de suas terras, deuses, cultura e relação com a natureza. Mais triste do que vê-los na porta do supermercado, a espiar as prateleiras com comida de branco, é sabê-los espoliados em sua dignidade. Mais deprimente do que presenciar a sua pobreza é fechar os olhos e rotulá-los, como os antigos colonizadores, de indolentes e preguiçosos.
Sem muitas perspectivas dentro da reserva, com a falta de caça, com rios poluídos, sem florestas, sem espaço suficiente de onde possam tirar a subsistência, os índios agora se juntam aos brancos pobres. Separados historicamente por uma relação de colonizador e explorado, agora eles estão unidos pela mesma miséria. O ato de fechar o vidro do carro, ou de dar moedas para não ser incomodado, adiciona mais um fator à pobreza dos índios brasileiros: a indiferença do branco.

mockup