Um dos momentos mais delicados na vida de uma família é a perda de um ente querido. E é nesse momento que a equipe responsável por captação de órgãos deve abordar os familiares, para que outras pessoas possam ter mais uma chance de viver. Quando a situação envolve crianças, tudo se torna ainda mais difícil.
Segundo estatísticas da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), no Estado do Paraná, em 2011, apenas seis doações (envolvendo um ou mais órgãos) foram realizadas na faixa dos 12 aos 17 anos. Nas idades de 0 a 5 anos e de 6 a 11 anos não houve doadores. Em São Paulo, houve 80 doadores, em todas essas faixas etárias.
No Hospital Pequeno Príncipe (HPP), em Curitiba, tido como referência no transplante infanto-juvenil, no ano passado foram realizados 39 transplantes de rim, fígado e coração.
Dados da Central de Transplantes do Paraná indicam que atualmente 81 crianças e adolescentes até 17 anos estão na fila por um transplante no Estado, sendo 1 para coração, 3 para fígado, 11 para córneas e 66 por rins. Não é possível precisar o número total de transplantes realizados em 2011 nessa faixa etária, já que o HPP realiza cirurgias infanto-juvenis e nos outros hospitais não há separação dos dados.
Para tentar aumentar o número de transplantes na faixa etária de 0 a 17 anos, a Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) do Hospital Infantil Sagrada Família, de Londrina, está promovendo um treinamento voltado aos profissionais de saúde que trabalham na pediatria. São abordados dois temas: morte encefálica e abordagem da família.
Culpa
De acordo com Érika Fernanda Bezerra, coordenadora da CIHDOTT, a maior dificuldade para obter doações está na abordagem da família. ''O enfrentamento da dor da família é um grande obstáculo. Não é por falta de habilidade dos profissionais, mas por conta do vínculo que se forma e a equipe sente, como os familiares, a perda do paciente. É um momento muito delicado, mas precisamos lembrar que existem outras crianças que também podem morrer por falta de um órgão'', explica.
Outro dificultador identificado pela equipe é a culpa que muitos pais sentem quando a morte é por trauma. ''Nesses casos a recusa é maior. Precisamos ter uma abordagem informativa, que acolha a família'', destaca. ''Até por essa dificuldade, o transplante entre vivos é maior no Paraná do que em outros estados'', completa.
Segundo a coordenadora, os critérios e normas para doação são os mesmos de adultos, apenas o intervalo de tempo em que são realizados exames para constatar a morte encefálica é diferente entre as faixas etárias. ''Quanto mais nova a criança, maior é o intervalo de tempo, por causa da capacidade de regeneração das células'', explica.
Embora seja uma das condições para transplante, o tamanho do órgão não é um dificultador no momento de encontrar um receptor. ''Existe a fila do Paraná e se o órgão não pode ser transplantado aqui, ele é encaminhado para uma criança ou jovem de outro estado que tenha compatibilidade. Existe uma fila infantil e os órgãos pediátricos não são transplantados em adultos'', garante Érika.
Ela também frisou que não é possível elencar um órgão pelo qual haja mais procura, mas existem aqueles em que não é possível usar um paliativo enquanto se aguarda o transplante. ''No caso de problemas renais podemos nos utilizar da hemodiálise, que permite uma sobrevida. Quem tem problemas cardíacos não tem a mesma chance.''

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