Osmani Costa
De Londrina
Hoje, Maria Ângela Comunello Floriano já se levanta sozinha no berço, arrisca uns passinhos segurando nas mãos da mãe, balbucia as primeiras palavras ainda ininteligíveis e sorri para o flash da máquina fotográfica. Pode parecer pouco para uma menina que completa 15 meses de vida na próxima terça-feira. Mas significa um grande avanço para esta gêmea que nasceu prematura de seis meses e num parto raro na América Latina.
‘‘Diante das condições do nascimento, o estado geral de saúde da Maria Ângela é excelente. Suas respostas têm sido muito boas, notadamente depois do início das sessões de fisioterapia. Ela deve estar andando em cerca de três meses’’, comenta o neuropediatra do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Aparecido José Andrade, que, na tarde de ontem, realizou uma ‘consulta de retorno’ na menina.
Segundo o médico, a tomografia, o eletrocardiograma e outros exames laboratoriais demonstram que está tudo quase normal com Maria Ângela. ‘‘Do ponto de vista mental, está tudo adequado para a sua idade. Ela tem boa percepção, se expressa bem e não tem deficiência sensorial’’, avalia. ‘‘A menina apresenta apenas um leve retardo no desenvolvimento motor, mas nada grave. Ela tem, hoje, respostas comuns em crianças que estão entre 8 e 11 meses de idade’’.
De acordo com o neuropediatra, esta sequela é consequência da falta de oxigenação adequada no sistema nervoso central do cérebro de Maria Ângela, por causa do nascimento prematuro que gerou um problema pulmonar. ‘‘Ela está apenas um pouco atrasada, mas se recupera muito bem e tem uma saúde geral ótima.’’
A professora Mariza Comunello Floriano, 35 anos, mãe de Maria Ângela, veio de Manoel Ribas (cerca de 200 km ao sul de Londrina) para acompanhar o exame e se diz feliz com o resultado. ‘‘Agora, está tudo bem. Depois do nosso sofrimento e do susto, ela só dá alegria para a família inteira’’, conta ela, que é casada com o funcionário municipal Maurício Floriano.
‘‘Ela está muito bem. A única doença que tem é bronquite. Ela tem tomado um complexo de vitaminas, ainda mama nos seios, e se desenvolveu muito depois que iniciou as sessões semanais de fisioterapia, em março.’’, explica a mãe, lembrando com orgulho que Maria Ângela pesa 10 quilos e mede 72 centímetros. ‘‘Às vezes, penso em ter outros filhos. Mas tenho receio de sofrer tanto novamente.’’
O parto dos gêmeos, ocorrido ano passado no Hospital Universitário, é considerado o primeiro caso na literatura médica latino-americana e foi realizado pelo ginecologista e obstetra Ricardo Mendes Alves Pereira. A mãe estava esperando gêmeos dizigóticos (quando há duas placentas). A gravidez seguia bem até que, na 24ª semana, uma das bolsas se rompeu. No dia 22 de abril nasceu o bebê do sexo masculino, com 630 gramas. Ele morreu devido à prematuridade.
Os médicos do HU tomaram os procedimentos e administraram medicamentos para ‘‘segurar’’ o outro bebê no útero. Mariza permaneceu internada até que, no dia 17 de maio, nasceu Maria Ângela, com 940 gramas. Ela só saiu do hospital três meses depois.

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