Criança denuncia violência e acaba intimada pela polícia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de outubro de 2003
Adriana Savicki<br> Reportagem Local 
Uma carta, escrita por um menino de 12 anos, transformou um exercício de cidadania numa tremenda dor de cabeça para o garoto. Maurício (nome fictício), escreveu para o Secretário de Segurança Pública, cargo exercido até pouco tempo pelo governador Roberto Requião, denunciando a violência em Londrina e cobrando uma providência para o problema. A resposta demorou dois meses e em vez da solução que ele esperava, o menino passou pelo constrangimento de ver um carro da polícia na porta da casa dele com uma intimação para que ele fosse até a delegacia prestar depoimento sobre as reclamações que havia feito. O que deveria ser uma resposta do Poder Público acabou se tornando um transtorno na vida do menino.
Motivos para reclamar não faltam. Apenas neste ano, ele foi alvo de duas tentativas de assalto quando ia para escola, na área central da cidade. Na última, ele escapou de três adolescentes, um deles armado com um pedaço de pau, se escondendo em uma loja. ''A hora que eu entrei, ele jogou o pau e quase acertou em uma mulher grávida'', relembra. Na carta, ele relatou o episódio ao governador e contou que perdeu uma amiga, transferida da escola após ser assaltada dentro do ônibus .
Na terceira vez, ele não teve tanta sorte e foi assaltado mesmo. Os ladrões levaram o boné que ele tinha acabado de ganhar de presente de aniversário. Revoltado e assustado, o menino procurou ajuda com os Policiais Militares (PMs) que fazem a ronda no local, próximo da casa dele. ''Eu chamei e eles nem pararam para falar comigo'', conta.
Dias depois, a família de Maurício se surpreendeu quando um carro da polícia estacionou na frente da casa. Os policiais foram até lá para entregar uma intimação endereçada ao menino. ''Eles nem me explicaram qual era o motivo, eu até questionei os policiais se eles não imaginavam que estavam traumatizando meu filho'', afirma a mãe do garoto, que também pediu para não ser identificada. Maurício teve que perder aula para explicar, para um escrivão, os problemas de segurança que havia relatado na carta. Diligências foram realizadas nas imediações da escola, mas os suspeitos não foram identificados.
Meses depois, a polícia foi novamente à casa do estudante para nova intimação. Como a mãe pediu pque o filho não perdesse mais aulas, o delegado-chefe da 10 Subdivisão Policial (SDP), Jurandir Gonçalves André, entrou em contato com ela para explicar o procedimento policial de rotina e como orientar o menino a pedir ajuda. ''Ao que parece, ele deveria ter ligado para o 147, procurado a delegacia e nunca ter escrito a carta'', argumenta a mãe. ''Meu filho está meio receoso e nem comentou o fato com os colegas'', complementa. O desconforto do menino é evidente. Ele relutou em dar entrevista, com medo de ser chamado novamente à delegacia.
Segundo o delegado, o procedimento foi solicitado pela assessoria do governador Roberto Requião com o objetivo de orientar o menino sobre os serviços públicos e tentar descobrir os autores da violência a que ele se referiu na carta. ''Ele foi chamado para que pudéssemos saber o que estava acontecendo e temos que ouvir a vítima na delegacia'', justificou o delegado, quando questionado se não houve exagero da polícia em obrigar o menino a ir duas vezes até a delegacia.
André negou ter sugerido, mesmo indiretamente, que Maurício não deveria ter escrito a carta. ''É elogiável, um ato claro de cidadania com um garoto da 5 série buscando soluções para seus problemas e pedindo providências''.
Para Maurício, no entanto, a experiência só trouxe decepção. Apesar de dizer que não se arrepende de ter escrito a carta, o menino garante que não escreveria outra. ''Para mim, não precisava tanta coisa, era só resolver e pronto''. Toda a história, bem como o descaso dos PMs que faziam a ronda, fez com que ele perdesse um pouco da fé que tinha nas instituições policiais: ''Eu achava que se alguém chamasse eles iam lá ver o que estava acontecendo''.


