Criança de rua é coisa do passado no município da Lapa
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sábado, 19 de julho de 1997
Curitiba 
DivulgaçãoAtividadesAlunos passam meio período na sala de aula e o restante em atividades como horta, artesanato e aprendizado de ofíciosValentina Piovezan Batista, secretária da Educação da Lapa - município a 65 quilômetros de Curitiba - não tem medo de dizer: Nossa cidade não tem crianças de rua. A afirmação, que para grande parte dos municípios brasileiros parece utópica, é anunciada como realidade na Lapa em decorrência de um trabalho iniciado em 1993 e centralizado no Caic (Centro de Atendimento à Criança e ao Adolescente), onde o encontro da educação formal com atividades paralelas procura fazer da escola um local mais atraente que a rua.
Quando foi inaugurado, em setembro de 1994, o Caic da Lapa já tinha uma história de mais de um ano. É nesse tempo que Valentina encontra a razão para o sucesso do projeto. Convidada para dirigir o Caic, ela se pôs a campo antes mesmo de começar a construção do prédio. Conta que visitou 450 casas do loteamento Nosso Chão, onde vivem famílias de baixíssima renda.
Em cada casa, a professora se apresentava e convidava a família para visitar as obras do Caic. Pedia que ajudassem na limpeza, no descarregamento dos móveis e equipamentos que iam chegando. Queria mostrar que aquele espaço era deles e que precisavam cuidar, em benefício da educação dos filhos, diz.
DivulgaçãoAntes do programa, 80% das crianças em idade escolar estavam fora das salas de aula; hoje 800 frequentam o Caic
A secretária diz que enfrentou muitos obstáculos: Pessoas da própria comunidade me diziam que não ia dar certo, que as crianças iam quebrar tudo, que eu estava perdendo meu tempo. Um levantamento feito por ela na época mostrou que cerca de 80% das crianças em idade escolar da região estavam fora da escola.
Quando foi inaugurado, o Caic tinha 400 alunos matriculados. Hoje, tem 800, do berçário à 8ª série. Destes, 50 formam um grupo especial. São crianças e adolescentes considerados em situação de risco e que costumavam passar pelo menos parte do dia na rua, pedindo esmolas, brigando e cheirando cola.
Hoje, esses menores passam o dia na escola - meio período na sala de aula e o restante em atividades como coral, oficinas de artesanato e marcenaria, horta e aprendizado de ofícios como mecânica e borracharia. Também é no Caic que elas almoçam e tomam banho diariamente.
Para manter os filhos na escola, as famílias recebem uma cesta básica mensal, fornecida pelo programa Da Rua para a Escola, do governo do Estado. Mas Valentina Batista diz que, na Lapa, as exigências do programa foram ampliadas. Duas vezes por semana, segundo ela, as mães das crianças devem participar das reuniões e prestar serviços de limpeza na escola. É uma forma de manter o comprometimento da comunidade com o projeto.
A direção do Caic também buscou a participação dos demais moradores da cidade. Cada um dos 50 meninos e meninas do projeto especial tem um padrinho ou madrinha - pessoas da comunidade que assumiram o compromisso de dar atenção e carinho aos afilhados. Segundo Valentina, os moradores também se acostumaram a avisar o Caic quando viam menores pedindo esmolas ou cheirando cola.
Mas é tudo um mar de rosas? Claro que não, diz a secretária. Segundo ela, muitos adolescentes têm recaídas e voltam a cheirar cola, continuam abandonando a sala de aula de vez em quando e manifestando agressividade. Mas agora sabemos lidar com tudo isso, afirma.
Segundo ela, professores e funcionários do Caic tiveram que vencer a própria resistência aos meninos de rua. Os professores foram treinados por uma equipe da Universidade Federal do Paraná. Sobretudo, aprenderam com a experiência de que, para crianças acostumadas à triste liberdade das ruas, a escola não pode ser um ambiente estático.
Não esquecemos a disciplina, mas temos que respeitar o aluno que resolve levantar e sair da sala, ou que não quer fazer determinada atividade, diz a secretária. O mais importante, segundo ela, é que hoje não é mais preciso ir atrás desse menino: Eles criaram um laço afetivo com o Caic e sempre voltam.


