Criador do GGB fala sobre homossexuais
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quarta-feira, 09 de setembro de 1998
Osmani Costa 
A luta dos homossexuais contra o preconceito e a discriminação é ingrata e maldita. Mas ela é também prazerosa e necessária. Porque se trata de uma luta pela afirmação da nossa identidade existencial; porque não podemos continuar aceitando que nos obriguem a ser o que não somos. Não fazemos apologia do homossexualismo - apesar de que ele é legal; não queremos que os heterossexuais se tornem homos. Só queremos que respeitem os nossos direitos de cidadãos comuns.
Esta afirmação é do antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia, Luiz Mott, que está hoje em Londrina. Ele veio proferir duas palestras a convite do Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina (UEL). As palestras acontecem a partir das 8h30 e 14h30, no anfiteatro maior do Centro de Ciências Biológicas da UEL, e vão tratar, respectivamente, da Homossexualidade: mitos e realidade e do Homossexual jovem.
Nacionalmente famoso desde 1995, quando defendeu a tese de que Zumbi dos Palmares - o maior líder negro da História do Brasil - teria sido homossexual, Luiz Mott, que já foi casado e tem duas filhas, é também o presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB).
O GGB, criado em 1980, é a mais antiga organização não-governamental de defesa dos direitos dos homossexuais no País e foi a primeira a trabalhar de maneira sistemática, a partir de 82, em campanhas de prevenção do vírus do HIV/AIDS.
Nós, homossexuais, formamos a última tribo romântica deste milênio. Enquanto os heterossexuais lutam pelo divórcio e direitos de separação, nós lutamos pela possibilidade da parceria civil entre os que são do mesmo sexo e se amam. Nós lutamos pelo direito de nos amarmos com liberdade, sem discriminações e preconceitos alimentados pela ignorância, afirma o antropólogo. Ele já publicou 12 livros, é mestre pela Universidade de Sorbonne (Paris-França) e doutor pela Universidade de Campinas (Unicamp).
Apesar de reconhecer as conquistas alcançadas pelos homossexuais, ele lembra que esta parcela da população - que seria cerca de 6% segundo estatísticas internacionais - ainda sofre muitas formas de discriminação social, política e religiosa.
A cada três dias, um homossexual é assassinado no Brasil. Isto é absurdo, ainda mais porque a justificativa dos crimes normalmente é a ultrapassada legítima defesa da honra, ressalta Luiz Mott.
Segundo o antropólogo da Universidade da Bahia, apenas 10% dos responsáveis por estes assassinatos foram a julgamento; e somente 2% dos assassinos foram condenados e levados a pagar suas penas. De 1980 a 97, o GGB catalocou perto de 1.600 mortes violentas de homossexuais em todo o País.
Infelizmente, ainda são poucos os homossexuais que se dispõem a vir a público debater estas questões. É fundamental que nós não continuemos a aceitar esta violência, que precisa ser denunciada publicamente com força. A nossa voz é nossa única arma constra a discriminação, contra esta opressão, explica Luiz Mott.
Ele diz que são três os principais mitos criado em relação ao homossexualismo: o comportamento seria invenção dos tempos modernos; ele seria uma prática exclusiva do homem branco do Ocidente; caso houvesse a liberação da prática, ela levaria à extinção da espécie humana.
O Grupo Gay da Bahia está preparando, para lançar no ano 2000, em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil, um livro sobre os 500 homossexuais mais famosos do País. Entre eles, estarão a Imperatriz Leopoldina, o escritor Mário de Andrade, o inventor do avião Santos Dumont, o cineasta Mazzaropi, a cantora e atriz Carmen Miranda, o ex-governador da Bahia, Câmara Coutinho, e outras personalidades - vivas e mortas - dos nossos cinco séculos de história.


