Marcos BorgesRessentimentoJúlio Cesar: ‘Muitos pensam que o meu negócio não é sério’‘‘Eu não quero que me dêem dinheiro, sei trabalhar’’. É o que Júlio Cesar da Silva Nascimento, 17 anos, portador de deficiência física, responde de imediato às pessoas que, antes de ouvir o que ele tem a dizer, vão logo pensando que quer esmolas. O garoto propaganda sai de Maringá, onde mora com a família, todas as manhãs e vem ao centro de Londrina vender anúncios publicitários para um panfleto que ele mesmo distribui. Ele só retorna para casa no final da tarde. A intenção de Júlio é permanecer na Cidade e poder, com seu trabalho, custear tratamento de fisioterapia e de fonoaudiologia. ‘‘É difícil porque aqui as pessoas me discriminam, pensam que estou pedindo dinheiro.’’
Júlio César tinha 11 anos quando sofreu uma queda numa aula de tae kwon-do. Foi submetido a cirurgia na cabeça para remoção de coágulos de sangue e acabou entrando em coma. Passou 17 dias inconsciente. A falta de oxigenação no cérebro deixou sequelas: além da paralisação dos membros do lado esquerdo, o rapaz tem dificuldade para falar. Ele passou quase um ano sem se movimentar e, para tentar reaver os movimentos, começou a fazer fisioterapia.
Vendo a dificuldade do pai, que é pedreiro, para manter a família (é o mais velho dos três irmãos), decidiu ir para as ruas de Maringá, entregar panfletos. Um ano depois, Júlio teve a idéia de montar um ‘‘jornalzinho’’ só com anúncios. A idéia foi bem sucedida e o panfleto, distribuído a cada bimestre, com tiragem de 5 mil exemplares, acabava rendendo quase R$ 1 mil.
Júlio conta que decidiu vir para Londrina onde espera obter um tratamento de saúde mais eficaz. Apesar da dificuldade para se movimentar, passa o dia todo andando atrás de empresários do centro da Cidade. ‘‘O problema é que muitos não me recebem ou pensam que o meu negócio não é sério’’, diz o jovem, que carrega na pasta recibos e impressos de contratos com os clientes.
O garoto propaganda destaca que seu produto tem retorno garantido. ‘‘Muitas pessoas ficam admiradas em saber que determinada empresa está anunciando porque isso é também uma forma de me ajudar.’’ Para fazer o tratamento em Londrina, Júlio tem outra dificuldade: por ser menor de idade, precisa encontrar alguém que se disponha a alugar uma quitinete para ele. ‘‘Posso pagar o aluguel.’’
Procurada pela Folha, a mãe dele, Sônia do Nascimento, que trabalha como zeladora numa cooperativa de Maringá, garantiu que o filho é responsável. ‘‘É ajuizado, tem muitas boas idéias na cabeça e faz tudo certinho.’’. Segundo ela, a única preocupação é quando o tratam mal, o discriminam. ‘‘Ele chora muito, fica nervoso e com dores de cabeça.’’ O filho, diz ela, tem planos para comprar um computador e trabalhar com a impressão de convites para festas.
Os empresários que tiverem interesse em apoiar o trabalho de Júlio Cesar podem entrar em contato com ele através do telefone (043) 330-3055, bip 4310409. ‘‘Fiz uma permuta com a central.’’ Júlio Cesar conta com a ajuda de pessoas sensibilizadas com o seu problema. ‘‘Dá para colocar aí que eu almoço todo dia no Galpão Nelore?’’ Ele também tem o apoio da Cooper Graf de Maringá, que dá desconto de 50% na impressão dos materiais.

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