Cresce o
número de
adolescentes
grávidas
Médico vê ‘problema social’ em Londrina
Paulo Ubiratan
É crescente o número de mães adolescentes - inclusive crianças de 10 a 14 anos de idade - em Londrina. Dos 7.682 partos realizados no ano passado na Cidade, 1.497 (18%) foram de mães adolescentes e 52 (3,47%), de meninas menores de 14 anos. Os dados são do médico coordenador do Centro Regional de Assistência ao Adolescente de Londrina (Craal), ginecologista César Kohatsu. ‘‘A situação é alarmante. Se não forem tomadas medidas imediatas, poderá ser caótica’’, alerta o médico, apontando a necessidade de o Governo implantar políticas que ‘‘combatam de frente o problema’’.
A situação alarmante atinge todo o País. Amostragem realizada pelo Ministério de Saúde revela que no período entre 1993 e 1996, dos 100 mil partos realizados no Brasil pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 56 meninas com idade entre 10 e 14 anos morreram. Nos países desenvolvidos, ocorrem apenas três óbitos de mães adolescentes para cada grupo de 100 mil partos. ‘‘A questão extrapola os limites da saúde pública e passa a ser um problema social’’, alerta o coordenador do Craal.
Para a Fundação Nacional de Saúde (FNS), o índice de adolescentes grávidas em Londrina é assustador, já que a média brasileira - também entre 1993 e 1996 - não ultrapassou a 2,4% das gestantes. O Estado do Acre encabeça a lista, refletindo o péssimo sistema de saúde que possui. No Paraná, a média foi de 1,13%. O índice mais baixo foi apresentado por Minas Gerais - 0,7%.
O Brasil apresenta uma das maiores taxas de mortes por parto do mundo, de mães com menos de 14 anos. Conforme estatística realizada em 1996 pela Unicef - órgão da Organização das Nações Unidas para a infância e a adolescência - o Brasil está no oitavo lugar em uma relação em que aparecem nos primeiros lugares países africanos e povos de diversas ilhas da Oceania, onde os costumes tribais permitem casamentos entre adolecentes.
O médico César Kohatsu enfatiza que o problema da gravidez precoce no Brasil ocorre mais nas classes pobres. Ele diz que em outras classes sociais o problema também existe, só que as grávidas e as famílias apelam para outros recursos - inclusive o aborto. ‘‘Nas classes mais capacitadas economicamente, o problema é maquiado e escondido. Nas maioria das vezes temos conhecimento apenas de seus efeitos, pelo aumento de complicações causadas’’, revela o médico, acrescentando que dados do Ministério da Saúde de 1996 apontam que 21,6% das 246.370 curetagens pós-aborto, em todo o País, foram feitas em adolescentes. ‘‘Em Londrina o problema está nesta mesma proporção.’’
César Kohatsu diz ainda que tem observado o aumento do número de meninas que iniciam precocemente a vida sexual. Na maioria das vezes elas não tomam nenhum cuidado contraceptivo, nem precaução em relação às doenças sexualmente transmissíveis. Para o médico, as meninas engravidam por acreditarem que nunca vão engravidar e porque se preocupam mais com a experiência que vão ter. ‘‘A maioria busca o sexo como uma forma de afirmação. São iguais aos meninos que têm a necessidade de correr risco em cima de uma motocicleta. Nos seus pensamentos mágicos se julgam imunes aos eventuais acidentes.’’
César Kohatsu ressalta para o fato de que a gravidez na adolescência atinge toda a família: tanto pela inexperiência da mãe como pela pouca idade dos avós. Segundo o médico, essa situação cria os mais variados conflitos, que devem ser administrados para o bem da mãe e do bebê que vai nascer. ‘‘É um universo muito grande de problemas que se criam em volta da mamãe adolescente. No Craal, estamos desenvolvendo diversos trabalhos com estas meninas, apesar da falta de pessoal e de apoio.’’
O coordenador do Centro Regional de Assistência ao Adolescente de Londrina enfatiza ainda que, quando necessário, a adolescente deveria ser tratada por especialistas, pois é suscetível a diversos outros problemas em relação a outras idades. Sua esperança está na hebeatria - ciência que trata do adolescente e que no Brasil está apenas engatinhando. ‘‘A hebeatria virá preencher uma lacuna no cuidado dos jovens. Esta especialidade atenderá todas as necessidades dos adolescentes que atualmente não são cuidados como deviam. Nossa sociedade chama de frescura o que o adolescente sofre. Devemos também acabar com o termo ‘aborrescentes’ e tratá-los com a atenção e a dignidade que merecem.’’
Para Kohatsu, o número de jovens mamães diminuiria se o Estado realmente se interessasse pelo problema. ‘‘Caso contrário, teremos cada vez mais meninas sendo obrigadas a abandonar a brincadeira com bonecas para cuidar de seu prórpios filhos.’’

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