Curitiba - Hoje é o Dia do Café, mas para André Luiz Smaniotto, 23 anos, e Marcelo Riedi, 23, há seis anos todo dia é dia de café. O estudante e o economista moram em Curitiba e se reúnem sempre, ao final da tarde, para degustar um bom expresso. ''Os lugares que servem chope geralmente têm música ao vivo com som nas alturas, é difícil conversar'', explica Marcelo, cujo vocabulário inclui termos como ponto de torra, blend (mistura entre dois ou mais grãos) e cupping (degustação de cafés).
Quando os amigos Marco Aurélio Riedi, 24 anos, e Lincoln Osako, 23, chegam à cidade, os quatro vão juntos ao Lucca Cafés Especiais, onde descobriram o prazer de apreciar o produto de grãos selecionados, um hábito que eles comparam ao de degustar vinhos. Com a chegada ao Brasil da franquia Cup of Excellence, que dá nota e elege os melhores cafés do ano, em 1999, o País entrou no páreo da produção e consumo de grãos de qualidade superior.
O Brasil é, de longe, o maior produtor de café do mundo. Em 2008 foram quase 46 milhões de sacas (de 60 quilos). Vietnã e Colômbia vêm em seguida, com 16 e 10,5 milhões de sacas, respectivamente. Dentre os estados brasileiros, o Paraná mantém o quinto posto, com a perspectiva de produzir 1,750 milhão de sacas em 2009. O primeiro da lista é Minas Gerais, com mais de dezenove milhões.
Do total consumido no Brasil, cerca de 4% (690 mil sacas em 2008) é de cafés especiais, ou gourmets, que têm crescido à média de 15% ao ano. E, aqui, cabe uma curiosidade: ainda que seja o maior produtor e exportador do mundo, o País está logo atrás dos Estados Unidos em consumo.
Aberto em 2002, o Lucca Cafés, de Curitiba, foi a primeira cafeteria no Brasil a torrar cafés especiais e fazer seus próprios blends. Para manter-se à frente, a rede, que tem duas lojas próprias e outras seis franqueadas, tem feito um investimento contínuo em lotes premiados.
Um exemplo são os 48 quilos de grãos da fazenda Kaquend, em Carmo de Minas, arrematados por R$ 4,8 mil, no início do ano, em um leilão. Duzentos e cinquenta gramas são vendidas na loja a R$ 30, a preço de custo, levando em conta que na torra se perde 20% - ainda que pareça fugir das regras de mercado, o preço ''baixo'' acaba sendo uma bela jogada de marketing, tal como descreve a dona do empreendimento, Georgia Franco de Souza, 45. ''Assim chamamos muita atenção para o nosso negócio'', diz. ''Um quilo foi vendido para uma cafeteria de Londrina, onde um expresso (30 ml) custa R$ 14.''
Ainda que o exemplo seja de um produto excepcionalmente caro, especialistas, como a própria Georgia, defendem o consumo dos cafés gourmets pela alta qualidade e preço relativamente baixo. O expresso tradicional da cafeteria de Georgia é um blend de grãos de Carmo de Minas (MG), a região com maior destaque no gênero, como Patrocínio, cidade do cerrado mineiro, que custa R$ 2,70. ''É o preço de um refrigerante'', define.
A cafeteria do Museu Oscar Niemeyer, também em Curitiba, vende pelo mesmo preço um blend feito pela loja de Georgia de dois cafés do Norte Pioneiro - da fazenda Pilar, de Cornélio Procópio, com outro da Ferroni, de Ribeirão do Pinhal. ''É como um vinho branco, é mais suave e não assusta o consumidor que não está acostumado'', explica Georgia.
Por serem de uma região de altitude menor - a Fazenda Pilar, de Cornélio Procópio, está a 750 metros do mar, enquanto as de Carmo de Minas estão a mais de 1200 - produzem um café menos encorpado, em que a permanência do sabor na boca é menor. Segundo descreve o guia da loja, os grãos da cidade do Norte Pioneiro produzem um ''aroma intenso com notas de caramelo''.
Marcelo já fez até curso de degustação de cafés, o tal cupping citado lá no começo da matéria. E pensou em fazer o de barista, para aprender a prepará-los. Por enquanto, continua como consumidor frequente. ''É uma ótima forma de encontrar os amigos'', completa.
Estímulo
A campanha Café é Saúde começa a ser veiculada a partir da próxima sexta-feira. A iniciativa do Ministério da Agricultura pretende estimular o consumo da bebida entre jovens. ''Por meio do mascote 'Supercafé', as peças promocionais abordam a função da bebida como estimulante para a memória e auxílio na prevenção de doenças, como depressão e asma'', explica o texto de apresentação da campanha, que também vai apontar a importância do produto para a economia - a cadeia produtiva do café gera cerca de oito milhões de empregos diretos e indiretos no País.

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