Silvana Leão
De Londrina
A recessão econômica e a cobrança cada vez maior pela produtividade dos funcionários têm aumentado muito nos últimos anos o uso de drogas dentro das empresas. A afirmação foi feita pelo diretor-presidente dos centros para tratamento de dependência química Vila Serena, John E. Burns.
De acordo com o especialista, que esteve na cidade na semana passada, a principal substância causadora de dependência nas empresas brasileiras é o álcool, seguido da maconha e da cocaína (definida como uma droga ilusória, que dá uma sensação de aumento de rendimento no início, mas que produz com o tempo queda de produtividade). Em quarto lugar vêm os medicamentos como anfetaminas e metanfetaminas, que são estimulantes do sistema nervoso central, muito utilizados por motoristas.
Burns é um dos defensores do exame de urina frequente entre os funcionários para indentificar os usuários de drogas. Ele já foi contratado por várias multinacionais para falar sobre as formas de evitar que o vício se alastre.
‘‘‘É praxe nas empresas internacionais o teste antidrogas nos exames admissionais. O teste também é realizado com frequência nas funções de alto risco (como motoristas), por suspeita, por acidente ou aleatoriamente’’, informou. Segundo Burns, no Brasil, já há várias empresas desenvolvendo programas de identificação e recuperação de dependentes químicos.
O diretor do Laboratório de Análises Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Ovandir Alves Silva, concorda que os programas de análises toxicológicas dentro de empresas são um eficiente meio de desestímulo ao uso de drogas. Ele lembra, porém, que os testes não devem ser usados como fator de punição, e sim acompanhados de programas de tratamento e recuperação.
Em Londrina, algumas empresas já desenvolvem projetos voltados à prevenção e tratamento ao uso de álcool e drogas. Uma delas é a Sercomtel, que implantou o Programa de Atenção ao Alcoolismo e Drogas (Paad) há 13 anos. O projeto foi motivado pela existência de um dependente dentro da empresa, e de lá para cá, 10 pessoas participaram do programa. Todas já estão aposentadas mas são acompanhadas para comprovar a abstinência.
‘‘Atualmente trabalhamos apenas na área da prevenção, pois não temos conhecimento de mais nenhum caso entre os funcionários’’, explica a assistente social Jane Ribeiro Bonine, uma das coordenadoras do Paad. Ela acredita que o principa mérito do programa é conscientizar, principalmente através de palestras, sobre os malefícios do álcool e das drogas.
Segundo Jane Bonine, uma das maneiras de detectar o vício é através dos exames periódicos realizados dentro da empresa. Quando fica comprovado um caso de dependência química, o funcionário é chamado para conversar e recebe a proposta de participar do programa. ‘‘Pode acontecer da pessoa não querer participar, por não admitir que tem o problema. Mas depois ele mesmo vê a necessidade e nos procura espontâneamente.’’
O Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa, em Londrina, iniciou em maio o seu Programa de Prevenção de Dependência ao Álcool. Segundo o supervisor de recursos humanos da empresa, João Roberto Gonçalves, estima-se que 10% dos funcionários apresentem dependência ou podem vir a desenvolvê-la.
Gonçalves explica que o programa desenvolvido na Embrapa-Soja tem caráter informativo e, principalmente, preventivo. ‘‘O sucesso da iniciativa depende acima de tudo da conscientização e da boa-vontade do próprio funcionário. Além disso, as pessoas tendem a fugir quando são interpelados diretamente.’’ De acordo com o supervisor de RH, a empresa não pretende adotar testes específicos para detectar a dependência. Ele explicou que um dos sinais pode ser a avaliação anual de cada funcionário, já existente, que mostra queda ou aumento de produtividade.Trabalhadores têm recorrido às drogas como forma de aliviar a pressão causada pela crise econômica e exigência da produtividade
Arquivo FolhaVÍCIOPesquisa aponta o álcool como principal causador de dependência nas empresas brasileiras, seguido pela maconha e cocaínaDorico da SilvaBurns, que foi contratado por multinacionais para evitar que vício se alastreDorico da SilvaOvandir Silva, da USP, durante palestra: fazer análises toxicológicas

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