Cresce apreensão de palmito clandestino
Maria Tereza Boccardi
Especial para a Folha
Um levantamento feito pela Polícia Florestal em Foz do Iguaçu, a pedido da Folha, concluiu que no primeiro semestre deste ano foi apreendida 1,7 tonelada de palmito extraído ilegalmente do Parque Nacional do Iguaçu. Esse volume representa mais do que o dobro (em torno de 120%) das apreensões registradas em todo o ano passado - aproximadamente 790 quilos.
O diretor do parque, Júlio Gonchorosky, atribui esse aumento à parceria entre o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) - órgão que administra a reserva - e a Polícia Florestal, o que permitiu o aumento da fiscalização. O Ibama, junto com a Florestal, já fechou pelo menos três fábricas clandestinas e mais de dez pessoas foram autuadas, avalia Gonchorosky.
Na opinião do tenente Renato Marchetti, comandante da Polícia Florestal, a intensificação da fiscalização não é o único fator para o crescimento da estatística. O aumento do desemprego e o empobrecimento dos moradores próximos ao parque também contribui.
O Parque Nacional do Iguaçu possui 185 mil hectares, no lado brasileiro, e abrange áreas de dez municípios das regiões Oeste e Sudoeste do Paraná. Somadas as populações desses municípios, são cerca de 550 mil habitantes. A fiscalização da área na região é feita por 39 policiais, número considerado suficiente pelo comando.
A extração de palmito em reservas naturais depende de autorização do Ibama. De acordo com o diretor do parque, na região não há ninguém autorizado a fazer isso. A extração ilegal ocorre ao longo de todo o Rio Iguaçu, um dos limites do parque.
O trecho entre os municípios de Capanema (Sudoeste) e Serranópolis do Iguaçu (Oeste) é a área mais agredida. Justamente por ser um dos mais ricos, afirma Gonchorosky. Ele acredita que a reabertura da Estrada do Colono não modificou a retirada ilegal.
A Estrada do Colono, que corta a reserva, estava fechada desde 1986. O trecho dentro do parque, de 17,6 quilômetros, liga os municípios de Capanema e Serranópolis. A reabertura, ocorrida em janeiro do ano passado, foi liderada pela Associação de Integração Comunitária Pró-Estrada do Colono (Aipopec). Mas a reabertura favoreceu o escoamento dessa produção ilegal, porque a estrada não tem nenhum tipo de fiscalização, diz Gonchorosky.
De acordo com o levantamento da Polícia Florestal, no ano passado foram apreendidas 1.975 cabeças (caules) de palmito e nenhum vidro em conserva. Três pessoas foram presas. Cada cabeça produz, em média, 400 gramas de palmito.
Apenas neste primeiro semestre, já foram apreendidos 3.891 vidros, com cerca de 300 gramas, e 1.429 cabeças de palmito. O número de pessoas presas por envolvimento no corte, transporte ou depósito do produto subiu para 11. O crime é afiançável e tem penas previstas entre seis meses e um ano de prisão.
Os palmiteiros agem geralmente em grupos. Na embalagem da conserva a falta de higiene é comum. Pegamos uma pessoa que estava manipulando o palmito ao lado de um chiqueiro, às margens de um córrego. Os vidros utilizados estavam imundos e eram lavados com a própria água do córrego, conta o tenente Marchetti.
O principal risco à saúde do consumidor é o botulismo. A doença provoca o envenenamento alimentar, produzido por alimentos enlatados ou conservados inadequadamente. O envenenamento acontece pela produção de uma neurotoxina, de alto poder agressivo que, mesmo em baixa concentração, lesa o sistema nervoso. Em nossa ação, estamos combatendo dois crimes: contra a natureza e a vida humana.
Conforme o tenente, o esquema do palmito clandestino muitas vezes envolve menores de idade. Eles são contratados para entrar no parque e fazer o corte. Alguns chegam a pernoitar na mata. Eles recebem entre R$ 0,40 e R$ 0,70 por cabeça de palmito ou cerca de R$ 10,00 por dia.Polícia Florestal e Ibama somam forças para diminuir a estatística da extração ilegal de palmito no Parque Nacional do Iguaçu
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