Crenças seduzem as pessoas
Michele Muller
De Curitiba
Não basta ser católico ou protestante: boa parte dos brasileiros de classe média se diz adepta a uma religião, mas não deixa de buscar respostas espirituais em uma série de crenças alternativas. Essa questão foi discutida ontem em uma palestra com o antropólogo José Guilherme Cantor Magnani, professor da Universidade de São Paulo (USP). Promovido pelo Programa de pós-graduação em Antropologia Social, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o evento teve como tema Uma etnografia de religiosidade contemporânea.
Paranaense radicado em São Paulo, José Guilherme desenvolveu, na capital paulista, um estudo sobre neo-esoterismo. Conversou com centenas de pessoas (o número certo ele mesmo não sabe informar) e chegou à conclusão de que as classes urbanas mais altas deixam-se facilmente seduzir pelo esoterismo.
Elas procuram fazer sua própria síntese a partir de rituais xamânicos, filosofias orientais e tradições esotéricas européias. Ao mesmo tempo em que as pessoas frequentam a Igreja Católica, elas recorrem a práticas como a acupuntura, exemplifica o antropólogo.
O antropólogo diz que seu estudo contradiz a teoria, adotada pela mídia e em universidades, de que o misticismo é mais presente em grupos sociais de pouca instrução. Descobri que existe um leque. Em uma ponta estão as pessoas mais simples, que consultam diariamente seu horóscopo. Em outra está um público mais sofisticado, que conhece diversas filosofias religiosas.
Se a busca por questões espirituais está crescendo ou não, José Guilherme afirma não saber. O que está claramente em crescimento constante, segundo ele, é o mercado de produtos místicos. Enquanto desenvolvia seu estudo, constatou que, da década de 80 para cá, foram instaladas em São Paulo cerca de mil lojas de artigos esotéricos. Esse é um fenômeno cosmopolita. É uma tendência mundial que pode ser constatada em qualquer cidade grande.
A vendedora Eliane Rosa, da loja Mitos e Lendas, em Curitiba, diz que o faturamento da empresa tem aumentado a cada ano. As pessoas não acreditam mais somente no que houvem nas igrejas, opina. Os produtos mais procurados por consumidores quase todos de classe média são, segundo ela, as velas e os incensos.





