Por um ano e meio, a diarista Andrea de Souza Nascimento, 27 anos, precisou pagar o equivalente a um quarto dos rendimentos mensais para que o filho, João, 4 anos, tivesse um direito respeitado. A despesa era com uma escola particular, uma vez que não havia vaga na creche mais próxima da casa dela, no Conjunto Ernani Moura Lima, na Zona Leste de Londrina.
A espera acabou somente no mês passado. Um alívio para Andrea, que cansou de ouvir a mesma resposta nesse período: não há vagas suficientes para atender a demanda. A jovem precisou até deixar João com o pai, por sete meses, para poder trabalhar e ganhar o sustento dos filhos - Andrea tem mais dois filhos, de 7 e 10 anos.
''Vai facilitar bastante porque o dinheiro que ia para a escolinha eu vou usar para comprar roupa e sapato para ele'', afirma a diarista. O caçula de Andrea agora fica na creche das 7 às 18h30. Na instituição chamada Vivendo e Aprendendo, ele e as outras crianças recebem quatro refeições por dia: café da manhã, almoço, lanche e jantar. E ainda aulas e atividades recreativas.
Mas muitas mulheres não têm a mesma ''sorte'' de Andrea. Para poder correr atrás de um emprego, a mãe que não tem onde deixar o filho precisa de uma vaga numa creche. A exigência das entidades, no entanto, é que o responsável pela criança já esteja empregado. A saída, então, é o jogo de cintura. ''Se existe a vaga e mãe não está trabalhando, damos um prazo de 15 dias para que ela arrume emprego'', explica a presidente do Fórum das Entidades Filantrópicas de Londrina, Rosângela Maria Gomes Damásio.
Rosângela, que também é diretora da Vivendo e Aprendendo, advertiu que é raro as instituições terem vagas em aberto. Isto ocorre porque a fila de espera sempre é grande.
O filho da estudante de Direito Thalita Karine Chaves, 20 anos, é uma das crianças na fila de espera da Vivendo e Aprendendo. Com 2 anos, Luiz Felipe aguarda vaga desde 25 de março. Enquanto isso, a mãe se desdobra para dar conta de cuidar dele e de Ana Luiza, que tem 4 anos, e estudar. E só espera uma vaga para o filho para que possa voltar a trabalhar.
Envolvimento
A seleção das crianças que têm direito à vaga em creches segue critérios de renda e de trabalho dos responsáveis. O ideal, no entanto, é que Londrina tivesse condições de atender 100% da demanda e que as exigências não fossem necessárias. As opiniões são da secretária municipal da Educação Carmem Baccaro Sposti. Hoje, o cálculo da secretaria é que 3 mil crianças estejam na fila de espera. Carmem, porém, admite que o número pode ser muito maior, uma vez que o índice divulgado inclui apenas as crianças cadastradas.
A estimativa é que 30 novas unidades precisem ser construídas para dar conta da demanda. ''Criamos 500 novas vagas por ano nos últimos oito anos. Mas essa demanda só poderá ser zerada com um grande envolvimento da comunidade e do poder público nessa causa.''

mockup