Crack ganha ruas de pequenas cidades
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de abril de 1998
Alexandre Sanches 
Arquivo Folha
Poder de destruiçãoEstudos mostram que os efeitos do crack são rápidos e devastadores; a droga atinge mais o pulmão e o sistema nervoso central
O tráfico de drogas, principalmente o crack, deixou de ser contravenção exclusiva de cidades grandes e está ganhando espaço cada vez maior nas médios e pequenos centros urbanos. Em municípios como Arapongas, Rolândia, Cambé e Ibiporã, no Norte do Estado, é comum encontrar jovens e adolescentes fumando crack na periferia e centro. E o número de menores cometendo pequenos furtos para sustentar o vício aumenta a cada dia.
Sem apresentar estatísticas, delegados da Polícia Civil não negam que o tráfico - em especial o crack - é praticado na região. Nas últimas semanas, foram presas várias pessoas acusadas de tráfico de crack, principalmente em Cambé, em operações conjuntas entre as polícias Civil e Militar.
O delegado de Cambé, Nasser Salmen, diz que o tráfico cresceu bastante nos últimos anos. O problema está nos aviões (pessoa que trafica para sustentar o vício) que estão aumentando bastante. Como ficam com pequenas quantidades da droga, fica difícil enquadrá-los como traficantes, explica. Salmen garante que os traficantes são protegidos pelos usuários, que preferem assumir a culpa sozinhos.
Salmen afirma que a situação ainda não é de calamidade. No entanto, admite que é cada vez mais difícil apontar o município que não possui tráfico de drogas. Estou vendo que o crack, em pouco tempo, irá matar mais do que a Aids, tamanho é o poder de destruição e expansão territorial que ele atinge. Como é uma droga barata, é facilmente encontrada.
Nas últimas semanas, vários pontos de tráfico de drogas foram desmantelados em Cambé, a maioria na periferia da cidade. Em todas as detenções, a polícia contou com a ajuda do Poder Judiciário, que emitiu mandados de busca e apreensão. Salmen garante que não há traficante que não venda o crack, porque a procura é grande.
Ele afirma que 90% das infrações envolvendo adolescentes têm ligação com a compra do crack. São pequenos furtos e arrombamentos. O usuário troca os objetos como videocassete, televisor, por uma bolsinha de crack. Uma bolsinha custa, em média, R$ 10,00.
O delegado de Arapongas, José Carlos Bassalubre, também está preocupado com a incidência do crack. Ele garante que a Polícia Civil está desempenhando o trabalho para coibir e preder os traficantes no município. O problema é que o usuário procura sempre incentivar outras pessoas a consumir a droga. E quando é preso, não divulga quem é o traficante, dando informações vagas. Geralmente ele assume sozinho, pois será enquadrado somente como usuário, argumenta. Bassalubre reconhece que o tráfico em Arapongas é igual em outros centros, com vários locais de venda.
Para atender aos casos caseiros de tráfico na região, a 10ª Subdivisão Policial de Londrina criou a Delegacia de Entorpecentes. Mas até agora, o projeto não saiu do papel. Os motivos seriam a falta de estrutura física para alojar a delegacia e a falta de policiais e escrivães suficientes para colocar o projeto em funcionamento.
O delegado-chefe da 10ª Subdivisão Policial em Londrina, Wanderci Corral Fernandes, disse que não há como coibir o tráfico porque o efetivo da Polícia Civil é considerado mínimo. Além do tráfico, atendemos homicídios, roubos, agressões e outros crimes. Não podemos ficar trabalhando somente num único caso, justifica.
Fernandes afirma que após o resultado do concurso público realizado recentemente para agentes da Polícia Civil, será possível criar a Delegacia de Entorpecentes. Segundo informações da Secretaria de Estado da Segurança Pública, virão para Londrina 40 policiais e 12 escrivães. Com estes policiais, poderemos reforçar a segurança na região e colocar em funcionamento a delegacia.
O comandante do 15º Batalhão da Polícia Militar em Rolândia, tenente-coronel Nelson Correa Ramos, não acredita que o volume de tráfico seja grande nos 14 municípios atendidos pelo seu batalhão. Ele argumenta que são poucas as prisões de usuários na região. Sabemos que o crack está sendo utilizado até por bóias-frias, pessoal de baixa renda. Mas o consumo não é grande na região como em Rolândia e Arapongas, argumenta.
Ramos justifica que, como maioria das cidades da região é de pequeno porte, as pessoas se conhecem mais e fica evidente quem é traficante e quem é usuário. Para mim, todo usuário de drogas é um traficante em potencial, porque ele oferece para os amigos e outras pessoas, seja por curiosidade ou coleguismo. De qualquer forma, incentiva o tráfico.


