'Crack exige novas estratégias de segurança'
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domingo, 22 de novembro de 2009
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Nem os municípios menores escapam: a epidemia do crack assola com a mesma violência grandes e pequenos centros, desencadeando uma onda de crimes que já não pode ser contida apenas com repressão. Uma das soluções apontadas é a prevenção, base do trabalho desenvolvido pela primeira Secretaria Municipal Antidrogas do país, instalada em Curitiba em fevereiro do ano passado. No rastro do trabalho pioneiro surgiram outras secretarias, assessorias ou departamentos - num total de 17 - para tratar do assunto no Estado. A próxima será instalada em Cornélio Procópio, no início do próximo ano. Por iniciativa da prefeitura, o município sediou um dos Encontros de Prevenção às Drogas e à Violência, semana passada.
Abertos ao público, os encontros transformam os participantes em multiplicadores de informação e são coordenados pelo delegado da Polícia Federal Fernando Francischini, hoje à frente da Secretaria Antidrogas de Curitiba. Em entrevista à FOLHA, o secretário foi enfático: ''A chegada do crack mudou toda a estratégia de planejamento da segurança pública. Se o foco se restringir ao caráter bélico está fadado ao insucesso''. Entre os materiais distribuídos nas palestras está uma cartilha que mostra os diferentes tipos de drogas, os seus efeitos no organismo, o que é dependência química e como identificar possíveis situações de uso de drogas, entre outras informações.
Durante 12 anos, enquanto esteve na Polícia Federal, Francischini participou do planejamento de grandes operações, entre elas as que resultaram nas prisões do traficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía, do contrabandista Law Kim Chong e do traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar. Segundo o delegado, porém, chegou um momento em que percebeu-se que só prender os chefes das quadrilhas não era suficiente. ''Eu tinha sempre a sensação de estar enxugando gelo. Depois das prisões, invariavelmente nos víamos diante de famílias destruídas. As histórias se repetiam e para nós faltava alguma coisa, que era dar uma resposta à sociedade.''
A resposta veio então por meio da Secretaria Antidrogas, que criou a Rede de Colaboração Curitibana e Metropolitana, formada por voluntários da comunidade, capacitados para ajudar nas ações de combate ao uso de drogas e prevenção à violência. A rede possibilita que denúncias sejam feitas pela internet - em pouco mais de um ano, mais de 400 denúncias foram repassadas para as autoridades policiais e Ministério Público. ''O crack é uma droga barata, que causa dependência profunda e incita o jovem pobre a se transformar em traficante sem qualquer tipo de limite. Por isso ele deve ser o foco do planejamento de combate à violência nos próximos anos'', argumentou Francischini.
O secretário ressaltou que mesmo municípios pequenos, onde ainda não se chegou à ''última fase do crack'', que é o homicídio, ações de combate mais eficientes devem começar o mais rápido possível. Um exemplo é Cornélio Procópio, que deve ganhar a Secretaria Municipal Antidrogas já no mês de janeiro. ''Nossa cidade ainda é uma das mais seguras do Paraná, mesmo assim mantemos o trabalho preventivo, em parceria com as polícias Militar e Civil. Mas entendemos que é preciso ir além, agindo também no campo da educação, daí nosso convite ao delegado Francischini, que é uma pessoa preparada para este tipo de orientação'', ressaltou o prefeito de Cornélio, Amin Hannouche.
Em relação a Londrina, uma das muitas cidades brasileiras que estão perdendo a luta contra o tráfico (já são 110 vítimas de homicídios este ano, a maioria morta por se envolver com o mundo das drogas) Francischini fez um alerta: ''Se não for feito um trabalho de prevenção, nem duas mil câmeras de segurança vão resolver o problema da violência urbana''.
Para atender a população que já sofre os efeitos das drogas, porém, a Secretaria Antidrogas da capital deve colocar em prática, no próximo ano, o projeto Rede de Comunidades Terapêuticas, que pretende oferecer melhor estrutura e suporte técnico para instituições que trabalham na recuperação de dependentes químicos. ''Nos últimos cinco anos, aumentou assustadoramente o número de adolescentes dependentes do crack, e a faixa etária envolvida é cada vez menor. A iniciativa é interessante porque soma-se aos trabalhos de repressão e de prevenção. A intenção é provocar o diálogo, uma movimentação no sentido de tentar resolver o problema'', argumentou Jonatas Liasch, presidente do Conselho de Pastores de Cornélio Procópio.


