Érika Pelegrino
De Londrina
De um universo de 4.810 nascidos vivos em Londrina, de janeiro a julho deste ano, 18% são filhos de jovens com idades entre 10 e 19 anos. A coordenadora do Centro Docente de Assistência (CDA) do Paraná 1 e clínica geral do Centro de Referência do Atendimento ao Adolescente (Craal), Maria Lúcia Guerchmann, afirma que este índice poderá alcançar 21% até o final do ano, a exemplo do ano passado.
Ela estará levando estes dados, e a experiência do Craal ao Simpósio Internacional de Gravidez na Adolescência, que acontecerá de 10 a 13 de agosto em Brasília. Guerchmann é a única representante do Paraná que estará participando do evento.
Segundo a médica do Craal, no Brasil os casos de adolescentes grávidas cresceram muito nos últimos quatro anos, apesar de a taxa de fecundidade em geral ter diminuído. ‘‘O índice de gravidez entre mulheres mais velhas diminuiu, mas entre as adolescentes cresceu’’, afirma.
De acordo com informações obtidas por Guerchmann, pesquisa realizada em 1997 entre 43 países aponta que a porcentagem de mães adolescentes subiu de 23,7% em 1994 para 26,5% em 1997. No mesmo período caiu o índice de gravidez entre mulheres acima de 20 anos, de 76,8% para 73,5%.
Em 1998, o Paraná ficou em 19º lugar no ranking brasileiro. De um total de 158.374 partos 25,44% foram realizados em garotas com idades entre 10 e 19 anos. Tocantis ficou em primeiro lugar. Dos 23.114 nascidos vivos, 35,03% eram filhos de jovens com idades entre 10 e 19 anos.
A desinformação, o baixo poder aquisitivo são apenas alguns dos fatores que levam meninas tão jovens a engravidar. Estes fatores passam, principalmente, segundo Guerchmann, por uma questão cultural ainda muito forte no Brasil: o machismo. ‘‘Elas muitas vezes não sabem dizer não ao garoto. Através de oficinas são feitos trabalhos com as adolescentes para que elas entendam que o corpo é delas’’, afirma.
Sem conhecimento do próprio corpo muitas garotas que iniciam precocemente a vida sexual chegam ao Craal preocupadas por não sentirem prazer nas relações sexuais. ‘‘Elas chegam dizendo que são chamadas de ‘frias’ pelos namorados e querem saber qual o problema com elas’’, conta Guerchmann. As oficinas realizadas pelo Craal trabalham o conhecimento corporal, na prevenção da gravidez na adolescência.
A baixa auto-estima, o pensamento mágico - ‘‘comigo isto não vai acontecer’’ - a falta de limites, a ausência de diálogo com os pais, são alguns dos outros fatores responsáveis pela gravidez precoce. ‘‘É muito difícil falar sobre sexualidade nas escolas porque os pais têm medo do assunto. Eles negam a sexualidade dos filhos’’, afirma Guerchmann.
Se os pais têm medo de falar sobre sexo com seus filhos, os jovens sentem vergonha de falar com seus pais, principalmente quando iniciam a vida sexual muito cedo. A sociedade, por sua vez, nega a existência do adolescente enquanto indivíduo, de acordo com Guerchmann. ‘‘O adolescente é visto como algo que incomoda, mas que não existe’’, afirma.
Guerchmann aponta para outro fator: a sensualização precoce. ‘‘A gente vê na televisão meninas de quatro anos sendo incentivadas a dançar o ‘tchan’. Os pais sempre podem desligar a televisão’’, afirma.

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