CPI derrubou secretário e delegado-geral
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sábado, 27 de maio de 2000
Valmir Denardin De Curitiba 
A passagem da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) nacional do Narcotráfico pelo Paraná abalou a estrutura e expôs a banda podre da Polícia Civil do Estado, acusada de envolvimento com o crime organizado. As investigações dos deputados resultaram na queda do secretário estadual de Segurança, Cândido Martins de Oliveira; e do delegado-geral da Polícia Civil, João Ricardo Képes Noronha.
Além deles, foram denunciados outros seis delegados alguns ocupantes ou ex-ocupantes de postos de comando e mais de 30 policiais. Todos eles, de acordo com denúncias feitas por criminosos presos ou testemunhas, teriam participação em quadrilhas especilizadas em crimes como tráfico de drogas, desmanche de carros roubados e até tráfico de crianças para o exterior.
No caso do narcotráfico, usuários de drogas seriam aliciados por investigadores para delatar traficantes, que eram obrigados a entregar a droga e pagar propina para evitar a prisão. Em relação ao roubo de carros, os donos dos desmanches pagariam até R$ 150 mil por mês para manter delegados que integravam o esquema como titulares de delegacias. Um acordo entre policiais e quadrilhas previa que, de cada 15 veículos roubados na Região Metropolitana de Curitiba, 11 deveriam ser recuperados. Os outros quatro iam para desmanche.
A CPI teve três passagens pelo Paraná neste ano. A primeira cidade em que a comissão se instalou foi Curitiba, entre 29 de fevereiro e 2 de março. Depois, os deputados ouviram depoimentos em Foz do Iguaçu nos dias 2 e 3 de maio e Ponta Grossa 8 e 9 de maio.
Cândido Martins de Oliveira foi acusado de conivência com o tráfico e os desmanches. As acusações contra Noronha são mais graves: ele comandaria uma quadrilha de tráfico de drogas e estaria envolvido no rapto de crianças. A CPI chegou a indiciá-lo por formação de quadrilha e tráfico de drogas e decretar sua prisão, mas ele fugiu e só se apresentou quando seus advogados obtiveram a revogação desse mandado.
Os outros delegados afastados de suas funções devido às denúncias são Newton Rocha (ex-delegado-geral e que vinha comandando o Grupo Tigre), Mário Ramos (do Centro de Operações Policiais Especiais), Kiyoshi Hattanda (da Delegacia do Consumidor), Noel Francisco da Silva (do 7º Distrito, de Curitiba), Gerson Alves Machado (do 3º DP, da capital) e Emilio Wzoreck (titular da 13ª subdivisão, de Ponta Grossa).
Na última terça-feira, a CPI indiciou Cândido, Noronha, Ramos, Wzoreck e o investigador Mauro Canuto, de Curitiba. Eles são acusados de formação de quadrilha e desacato à autoridade (por não ter comparecido para depor quando convocados). Agora, o Ministério Público do Paraná poderá decretar a prisão dos cinco. Noronha, Ramos e Canuto foram indiciados pela segunda vez.
Além de parte da cúpula da Polícia Civil, a CPI desvendou o envolvimento de empresários com quadrilhas de tráfico de drogas e desmanche de veículos roubados. O empresário Hissan Hussein Dehaini, de Araucária (Região Metropolitana de Curitiba) chegou a ficar preso durante 60 dias, acusado de tráfico e formação de quadrilha. Hoje, responde a processo em liberdade.
O empresário Joarez Costa França, o Caboclinho, de Rio Branco do Sul (também na região metropolitana), foi preso em 30 de março, acusado de manter demanches. Outro empresário, Paulo Mandelli, denunciado pelo mesmo crime, está foragido. Caboclinho e Mandelli são acusados de comandar o roubo de carros no Paraná.
Quando explodiram as denúncias da CPI, há quase três meses, o governador Jaime Lerner (PFL) anunciou uma faxina na Polícia Civil do Estado. Segundo o delegado-geral, Leonyl Ribeiro, as principais medidas moralizadoras são mudanças no Estatuto da Polícia Civil para punir com maior agilidade policiais envolvidos com crimes e dar mais autonomia à Corregedoria da corporação , além da criação da Ouvidoria da Segurança Pública, cuja função é receber denúncias da população. As duas medidas, de acordo com Ribeiro, deverão ser implantadas em poucos meses.


