Costureira enterrou marido e filho no fundo do quintal
Vânia Moreira
De Umuarama
Uma mulher aparentemente calma, discreta, que só saía de casa para trabalhar e pensava no bem estar das duas filhas, a costureira Maria de Lurdes Nunes dos Santos, 42 anos, chocou os moradores de Cianorte, no Noroeste do Estado, ao confessar ter matado o marido, José Gomes dos Santos e o filho, Paulo Sérgio Nunes dos Santos (na ocasião com 17 anos) e enterrado os corpos no quintal de casa. José Gomes foi morto dia 6 de janeiro de 1994. O filho do casal, cerca de um ano e meio depois.
Pai e filho foram assassinados da mesma maneira, com um golpe de soquete (peça de madeira usada para socar grãos) na cabeça durante anoite, enquanto dormiam. Os detalhes do caso são impressionantes. Maria de Lurdes cortou a cabeça e os membros do filho com uma faca de cozinha para o corpo caber no buraco que cavou no quintal. No início do mês, a Polícia desvendou o crime e encontrou as ossadas na casa da família.
Maria de Lurdes está presa na cadeia de Cianorte. O advogado dela, André Peres, vai pedir um exame de sanidade mental. Se ficar comprovado que a costureira tem problemas mentais, será encaminhada para um manicômio judiciário. Caso contrário, será julgada por duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver e pode ser condenada a até 30 anos de cadeia.
Folha O que levou você a matar seu marido e seu filho?
Maria de Lurdes Eles eram muito violentos em casa. Criavam um clima de terror e não nos deixavam viver em paz. Ameaçavam me matar. Meu filho usava drogas, estava envolvido com más companhias. Cansei de procurar a Polícia para pedir providências, mas eles diziam que não podiam prendê-lo. Uma vez ele me deu um golpe com uma corrente de ferro. Ainda tenho a marca no braço.
Folha Por isso você planejou matar os dois?
Maria de Lurdes Eu não planejei. Veio na minha cabeça fazer aquilo naquele momento e eu fiz. Matei os dois à noite, no escuro, dormindo, com uma pancada na cabeça e enterrei no quintal. Não dava para ver nada direito. Acho que se fosse de dia, no claro, eu não teria tido coragem. Quando meu marido me agrediu, me deu essa coisa na cabeça e eu fiz o que fiz. Depois, quando o Paulo também estava infernizando a minha vida, eu acabei tendo o mesmo impulso.
Folha Você também estava fora de si quando desenterrou o crânio de seu marido, mutilou o cadáver de seu filho ou quando colocou cal sobre os corpos para se decomporem mais rápido?
Maria de Lurdes Não sei explicar como tive coragem de fazer todas aquelas coisas. Não consigo falar nisso... (choro)
Folha Você nunca sentiu remorsos?
Maria de Lurdes Sim. Eu chorava muito escondido, quase não conversava com ninguém. Mas ninguém desconfiava porque sempre fui muito fechada. Só saía de casa para trabalhar e ir à Igreja. Eu não podia desabafar com ninguém. Quando fui morar com o Toninho (Antônio Juliani) , eu falei alguma coisa, não tudo. O nosso relacionamento não deu certo, larguei dele porque também estava começando a ficar nervoso e briguento. Ele acabou contando o que sabia à Polícia.
Folha O que você espera agora?
Maria de Lurdes Eu quero sair da cadeia. Não tem necessidade de ficar aqui. Eu preciso trabalhar, cuidar das minhas filhas que ainda precisam de mim. Eu sou uma pessoa boa, fora aquilo eu nunca fiz mal para ninguém, nem vou fazer. Ficam dizendo que sou um monstro, mas eu não vou sair por aí fazendo mal pra ninguém. Porque eu tenho que ficar presa. Eu não aguento ficar presa. Os outros presos fazem muito barulho, tem muita sujeira, mau cheiro, ratos...Não consigo dormir nem comer direito. Só me alegro um pouco quando minhas filhas escrevem ou vem me visitar. Elas também estão sofrendo muito, mas me perdoaram e ficaram do meu lado.
Folha Você não acha que tem de pagar pelo que fez?
Maria de Lurdes Eu já me arrependi. O que vai adiantar agora eu ficar presa?





