Costureira de 66 anos compõe hino contra a dengue
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
''Eh, eh, eh, fumacê/Eh, eh, eh, fumaçá/Tem alguém queimando coisa/Tá botando pra quebrá/Os agente da saúde/Só qué nos ajudá. A cidade está em pânico com este bicho danado''. Os versos e o temor não saem da cabeça da costureira Almerinda Chagas Macione, 66 anos.
Quando suas mãos não estão firmando a fazenda ou movimentando rapidamente a tesoura, elas estão dedilhando as seis cordas do violão, burilando sua obra mais engajada, dando um novo sentido ao seu hobby.
Todos nós somos agentes/dia e noite sem cessar/é de olho neste bicho/Que a gente vai se salvá.
A letra, na ponta da língua, ainda está inacabada. Durante o Carnaval, a costureira promete entregar a canção prontinha, para que a melodia seja assimilada rapidamente por um grande contingente de idosos.
Ela quer testar na prática o ditado que aprendeu na infância ''Quem canta seus males espanta'' e ajudar a afugentar o inimigo que os londrinenses ainda não aprenderam a temer: o mosquito aedes aegypti, o inseto frágil que, a cada verão, se transforma em caso de saúde pública por ser o transmissor da dengue.
Amante de moda de viola, Almerinda, mineira de Ibiraci, chegou a Londrina com cinco anos de idade. Ela demonstra o amor pela cidade quando sai às ruas e visita os vizinhos. ''Quando encontro uma sacola vazia na rua enchendo de água limpa e parada, recolho e jogo no lixo. Não pode dar mole para o mosquito'', conta, com contagiante bom humor.
''Tem um vizinho meu que deixa uma garrafa no quintal. Todo vez que visito ele, tropeço na garrafa e falo para ele tirar dali. Mas não adianta: vou no outro dia e tropeço de novo. O mosquito está a 120 quilômetros por hora, e o povo, a 30'', compara.
O hino de Almerinda integrante do grupo Sant'Ana, que se reúne no salão da Paróquia Nossa Senhora Aparecida deve ter letra distribuída para os 42 grupos do Harmonia, projeto municipal de valorização do idoso que atende, em reuniões semanais, 3,5 mil moradores com mais de 60 anos.
A composição engajada da costureira será um dos símbolos do Dia Municipal de Combate à Dengue, marcado para o próximo dia 13. Ontem, na última reunião antes da data, o Conselho Municipal de Combate à Dengue definiu como diretriz uma participação maior dos idosos. Os moradores desta faixa etária já participavam nas campanhas anteriores, quando recebiam orientações e ficavam incumbidos de passá-las aos vizinhos.
Este ano, porém, os maiores de 60 anos ganharão uma responsabilidade extra: vão receber saquinhos de areia para encherem os vasos de suas plantas e os dos vizinhos. ''Os saquinhos serão distribuídos nas duas próximas semanas'', garantiu a secretária do Idoso, Maria Angela Santini. Para ela, tornar os idosos mais ativos no mutirão irá ajudá-los a se consideram comunitariamente ativos, além de dar maior credibilidade à campanha.
O envolvimento dos idosos está relacionado à priorização do combate aos focos mais recorrentes garrafas plásticas, latas e vasos de planta. São estes ''criadouros'' que fizeram aumentar o índice de infestação domiciliar de 2,59 para 1,79%. As medições são feitas a cada 60 dias em 10% das casas de cada região pesquisada. ''Os idosos gostam muito de cultivar plantinhas em casa por isso são estratégicos na campanha'', explica a gerente do setor de epidemiologia da Secretaria Municipal de Saúde, Sônia Fernandes.
Até agora, foram confirmados quatro casos da doença. O número é bem inferior ao ano passado em janeiro de 2003 foram confirmados 407 casos mas segundo a gerente a secretaria está ciente que os próximos 60 dias são críticos. ''Não podemos relaxar.''


