Costureira comemora 103 anos de vida
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quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Fernanda Carreira <br> <br> Reportagem Local 
''Eu ainda tenho saúde. O que espero agora é desfrutar do amor da minha família até quando Deus permitir'', responde rápido e com serena lucidez a centenária Rosa Ferracini Modenutti, enquanto segura o bordado com a delicadeza das mãos que nem mesmo as marcas dos mais de 100 anos de vida conseguiram esconder.
Artesã talentosa, Rosa é uma das costureira pioneiras de Londrina, aprendeu a arte do bordado com a mãe italiana e já perdeu as contas de quantos vestidos de noiva produziu, sem nem mesmo saber ler, escrever e fazer contas. Ela é filha de imigrantes, nasceu na Fazenda Nossa Senhora Aparecida em 1909, em Itápolis (SP), e mudou-se mais tarde para Quatá, também no Interior paulista. Em 1936, chegou em Londrina com o marido Zepherino Modenutti, já falecido, e os três filhos. Logo se apaixonou pela cidade e passou a se dedicar à profissão e à família, em uma época em que a maioria das mulheres não trabalhava.
''O começo não foi nada fácil. Quando chegamos em Londrina existiam poucas casas e queríamos construir nossa vida aqui, porque é a terra que escolhemos. Meu marido começou a trabalhar na manutenção de ônibus da empresa Garcia e eu me dividia entre o cuidados com os filhos e a confecção dos vestidos para as noivas'', sorri orgulhosa a costureira, que morou por cerca de dez anos na Rua Pará e depois mudou-se para uma casa localizada na Rua Niterói (Área Central), onde ela e a filha mais velha, de 80 anos, vivem até hoje.
Rosa é mãe de cinco filhos, tem 17 netos, 28 bisnetos e 7 tataranetos. E, apesar da idade avançada, 103 anos completados hoje, tem saúde para dar e vender. Disposição que a acompanhou ao longa da vida. ''Eu trabalhava noite e dia. Gostava de costurar e ficava feliz ao ver a noivas satisfeitas'', contou a artesã, que por não ser alfabetizada teve que criar uma técnica para produzir os modelos de acordo com as medidas das clientes. ''Eu pedia para que elas trouxessem alguma peça de seu vestuário e de lá eu tirava o tamanho.''
Brincalhona e com um temperamento tipicamente italiano, Rosa revelou que só dava uma pausa nas encomendas quando muitas clientes começavam a se aglomerar na sala de sua casa. ''Era muita mulher falando ao mesmo tempo, e eu gostava de sossego para trabalhar. Então, quando juntava muito gente, eu já dava um jeito de dispensar aquele bando de mulherada faladeira'', brincou. ''Meu tempo era precioso, oras.''
Devoção
Fiel da igreja católica e devota de São Francisco de Assis, um dos fatos que mais orgulham a costureira e que faz com que repita a história várias vezes durante o relato de sua vida é o sonho que teve com o padroeiro dos animais.
Sem se lembrar de quantos anos tinha na época, Rosa conta emocionada que sonhou com um homem que se aproximava e pedia para que bordasse um toalha para o altar de uma igreja e desse de presente à comunidade. Dois dias após o sonho, uma colega da igreja foi visitá-la e fez o mesmo pedido. Impressionada com o fato e ao mesmo tempo feliz em poder servir à igreja, Rosa dedicou vários dias de trabalho ao bordado da toalha que até hoje enfeita o altar da Igreja São Francisco de Assis (Zona Oeste), onde ela frequentava.
Segundo a idosa, comovido com o presente, na época o padre fez um agradecimento especial. ''Ele orou para que Deus abençoasse as mãozinhas sagradas que haviam produzido aquela linda toalha para o Senhor e que eu vivesse por muitos anos. E isso acabou se concretizando, já é mais de um século de uma vida muito feliz.''


