A cinco dias de completar um mês como a primeira reitora de uma universidade paranaense, a professora Neusa Altoé já enfrenta um grande problema: o de resolver a crise financeira que paira sobre os 3,7 mil servidores, 1,4 mil professores e 11,8 mil alunos da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Uma crise que pode fechar laboratórios, interromper pesquisas, acabar com bolsas de estudo do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e do Programa Especial de Treinamento (PET) e até inviabilizar o pagamento do 13º salário dos servidores e professores.
No dia 23 de outubro, o governo do Estado suspendeu o repasse de recursos para a manutenção da UEM. E avisou que a partir deste mês o repasse dos R$ 50 mil mensais à instituição teria um corte de 30%. Na verdade, este dinheiro nem chega à universidade, que apenas remete as faturas dos seus gastos à Secretaria da Fazenda, que faz os pagamentos. A professora Neusa lembrou que existem faturas de agosto que ainda não foram pagas pelo governo.
Susto maior levou a reitora na última terça-feira, quando chegou à UEM um fax da Secretaria de Fazenda informando que todos os recursos gerados pela instituição estariam bloqueados. A UEM gera recursos próprios mensais da ordem de R$ 130 mil, resultado de convênios para pesquisa e fabricação de medicamentos para o governo do estado, da arrecadação da taxa de matrícula para os vestibulares. Este dinheiro é usado para pagar o custeio da universidade.
Neusa Altoé, na terça-feira, embarcou para Curitiba e foi bater à porta da secretário Giovani Gionédis, que não pôde atendê-la, mas que pediu a assessores que explicassem à reitora que ‘‘o estado está em situação difícil, que o sistema foi fechado para fazer uma avaliação financeira’’. Ainda ontem ela tentava uma entrevista com o secretário da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Alexandre Beltrão. ‘‘Na verdade, pelo que soube em Curitiba, o Estado está sem dinheiro, mas que depois de uma avaliação a situação pode retornar à normalidade’’, afirmou a reitora.
Na Assembléia Legislativa, ela recebeu a garantia do deputado Joel Coimbra (PFL) de que não existe intenção por parte do governador Jaime Lerner de, com esses cortes, dar início à privatização das cinco universidades estaduais do Paraná. ‘‘Recebi a garantia de que não existe tal intenção. O problema é a crise mesmo’’, disse Neusa.
Mas a União Paranaense dos Estudantes não pensa assim. O presidente da entidade, Joel Benin, avisou ontem ao vice-reitor da UEM professor José de Jesus Prevideli que os 170 mil estudantes universitários do Paraná vão fazer uma mobilização no próximo dia 10 em protesto contra os cortes. ‘‘Com os cortes, estão colocando em perigo a gratuidade das universidades estaduais. Não acreditamos nem na renovação das bolsas do CNPq e nem do PET. E mais ainda: estamos lutando para formar uma comissão para impedir um possível reajuste de preços das escolas e universidades privadas. Desta vez vai ter comissão com mediadores para evitar o reajuste brutal das mensalidades’’, disse Benin.
As aulas práticas do laboratório chefiado pelo professor e chefe do laboratório de Biologia Celular da UEM Paulo Mathias são pagas com recursos do CNPq (aparelhos e reativos). ‘‘Temos 200 ratos e camundongos que têm de se alimentar com ração. Eles vão morrer com o corte das verbas. Teremos que sacrificar os animais, pois pela lei não podemos deixá-los sofrer’’, disse.
Para Mathias, ‘‘está faltando apenas o aluno pagar para que as universidades estaduais sejam privatizadas de vez’’. ‘‘Boa parte dos nossos cursos de pós-graduação e de extensão já são pagos. A nossa função é fabricar tecnologia e atender os setores que a iniciativa privada não atende’’, afirmou.
Outro sinal do corte nas verbas destinadas às universidades estaduais foram os recursos, da ordem de R$ 120 mil, destinados a pagar despesas da 6ª Reunião Especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, realizada em Maringá na semana passada. Os recursos foram garantidos pelo secretário Alexandre Beltrão, mas até o final da tarde de ontem não haviam chegado à UEM. ‘‘São despesas que já foram feitas e vamos ter de pagá-las com recursos destinados ao custeio da universidade. Assim é muito difícil trabalhar, não temos como fazer um planejamento’’, concluiu a reitora Neusa Altoé.

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