Blumenau - Depois de doado, um galão de água mineral percorre muito mais que os 251 quilômetros entre Curitiba e Blumenau para chegar a uma das pouco mais de 22 mil pessoas desabrigadas da cidade catarinense. No fim da viagem, essa pequena demonstração de solidariedade com quem perdeu tudo ajuda a diminuir o sofrimento e o desconforto de depender da caridade de estranhos.
A FOLHA acompanhou uma das equipes que fez o transporte de 236 toneladas de doações para cinco cidades: Joinville, Itajaí, Brusque, Blumenau e Timbó, algumas das que foram devastadas pelas fortes chuvas que começaram a cair no dia 23 de novembro. O comboio levou, entre outras doações, dois galões de água mineral entregues pelo policial militar Rogério da Cruz Francisco no quartel dos Bombeiros do bairro Portão, na Capital. ''É minha primeira doação'', disse.
A contribuição de Francisco foi uma entre centenas de garrafas de água mineral embarcadas no caminhão Mercedes do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) dirigido por Amarildo Vicente. ''Eu pedi para meu chefe para ser voluntário'', contou. O caminhão de Vicente foi um dos 15 veículos escoltados pela Polícia Militar (PM) em direção a Santa Catarina.
O comboio foi organizado pelo tenente Frezato e acompanhado por carros do Batalhão de Choque da PM e dos Bombeiros. Às 10 horas de terça-feira, o grupo deixou o quartel dos Bombeiros no Portão e seguiu em direção à BR-376, que estava fechada por causa de uma queda de barreira. O grupo então decidiu seguir pela BR-277 e atravessar a baía pelo ferry-boat. Em solidariedade, os carros e caminhões que aguardavamm o embarque na balsa permitiram que o comboio passasse na frente.
Já na BR-101, em Santa Catarina, os caminhoneiros enfrentaram muita chuva e água na pista e passaram por inúmeros barrancos com marcas de deslizamento. O perigo, no entanto, não afastou da tarefa o voluntário Rodrigo Haffner, que cedeu o pequeno caminhão-baú da empresa da família para transportar roupas, água e papel higiênico até Blumenau. ''Minha família se estabeleceu em Santa Catarina quando chegou da Alemanha'', contou.
Organização
Dez horas depois da saída de Curitiba, quatro caminhões com destino a Blumenau chegaram ao Centro de Arrecadação de Donativos, um local improvisado na Vila Germânica (sede da Oktoberfest) para estocar e distribuir donativos na cidade. O grupo foi recebido pelos amigos Guilherme Mezari, 18 anos, Deise Campos, 20, Paulo Henrique Bezerra, 19, e João Gustavo Cardoso, 21. Os quatro viajaram de Curitiba a Blumenau para trabalhar como voluntários.
''É muito melhor estar aqui ajudando do que ficar vendo pela televisão'', explicou Deise, estudante do 3º ano de Relações Internacionais da UniCuritiba. O grupo chegou no sábado e na segunda-feira e, desde então, dedica mais de dez horas por dia às tarefas do centro de arrecadação. ''Hoje a gente ajudou a limpar o outro barracão'', contou Mezari. Quando a reportagem chegou, o quarteto ajudava a descarregar uma caminhonete cheia de roupas.
''Por dia temos uma média de 700 voluntários trabalhando aqui'', explicou o coordenador do centro, Carlos Volles. O desafio, disse Volles, é manter tudo organizado. ''Não precisamos de muita gente, mas é preciso que quem está aqui realmente coloque a mão na massa'', disse.
A estrutura da Vila Germânica foi montada ''da noite para o dia'', revelou Volles. ''Esse é um esforço que teremos que fazer por seis meses, talvez um ano'', prevê. O que o povo de Blumenau mais precisa? ''Alimentos, porque sem pasta de dente dá para viver, mas sem comida, não'', respondeu.
A Coordenadoria Estadual da Defesa Civil do Paraná informou ontem que está encerrando a campanha de doações, atendendo a um pedido da Defesa Civil de SC, que está com todos os seus espaços para recebimento de donativos ocupados.

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