Osmani Costa
De Londrina
O Córrego Londrina, na zona leste da cidade, já nasce com as águas poluídas – no fundo de vale entre o Jardim São Rafael e a Vila Ricardo – e segue ‘podre’ até desaguar no Água das Pedras, cerca de 1 km abaixo. A denúncia é de técnicos da Fundação Nacional de Saúde (FNS), que há anos fazem o monitoramento do nível de contaminação das águas dos córregos e ribeirões da cidade.
‘‘Este aqui é, sem dúvida, o que está em pior situação. As águas estão cheias de caramujos de vários tipos. O que vai transmitir a esquistossomose (barriga d‘água) é um só: o glabata’’, afirma o supervisor da FNS, Antonio Marcelino, mostrando os caramujos escondidos embaixo das folhas de capim na beirada do córrego, que é muito raso e estreito na cabeceira.
As minas que formam o Córrego Londrina ficam na encosta de um barranco sem qualquer mata ciliar ou proteção, a poucos metros da Avenida Theodoro Viotorelli e a aproximadamente 1 km do Terminal Rodoviário da cidade. Suas águas descem por dentro de um capinzal cheio de entulhos e lixo doméstico. ‘‘A qualidade da água piorou muito, de um ano e meio para cá, depois da instalação do Jardim São Rafael, que não conta com rede de captação de esgoto’’, comenta Marcelino.
Segundo os técnicos da fundação, o caramujo transmissor da doença encontra neste local as condições ideais de proliferação e contaminação. ‘‘Os caramujos são nativos nas águas da nossa região, a bacia do Rio Tibagi. Mas eles só se multiplicam demasiadamente e passam a representar perigo em águas paradas e sujas’’, explica o chefe de turma da FNS, Jaime de Castro.
O caramujo, originalmente, não contém o parasita causador da ‘barriga d‘água’. Isto ocorre depois que entram nele os ‘ovos’ vindos das fezes de uma pessoa já doente. Nos caramujos, os ‘ovos’ se transformam em larvas que, depois de soltas nas águas, atacarão outras pessoas através da pele. Não há vacina contra a doença, que é curada através de medicamentos.
‘‘Aqui, na nascente do córrego Londrina e ao longo do Ribeirão Água das Pedras, temos as condições ideais, mais críticas para a proliferação do caramujo glabata. As pessoas defecam nas margens; o esgoto sanitário doméstico tem ligações clandestinas diretas com os cursos de água’’, ressalta Antonio Marcelino. ‘‘Depois, muitos destes humildes ribeirinhos – notadamente as crianças e adolescentes – andam descalços pelas margens e dentro da água contaminada. É uma situação lastimável e perigosa.’’
Os técnicos da FNS dizem que, além dos cuidados que os moradores vizinhos devem ter – não nadar, não brincar, não pescar e não beber a água com caramujo –, a saída é a constante drenagem e limpeza do leito e margens dos córregos. A costureira Rosângela Valéria de Oliveira, casada, dois filhos menores, diz que os moradores do São Rafael têm consciência do perigo que correm e estão preocupados com a situação.
De acordo com ela, neste um ano e meio de existência do assentamento – que nasceu de uma invasão e conta com 106 casas – apenas um morador contraiu a esquistossomose. ‘‘Mas ele recebeu os remédios e se recuperou bem. Não deixamos mais as crianças brincarem aí nestas águas paradas, para evitar a contaminação. O pessoal da Saúde sempre passa e fala sobre os cuidados. Hoje, o perigo diminuiu porque já temos água encanada em todas os lotes. Mas realmente esta área está precisando de uma boa limpeza’’, comenta Rosângela de Oliveira, que é vice-presidente da Associação dos Moradores de Assentamentos da Região Leste de Londrina.
Há cerca de três meses, as funções de recuperação, manutenção e fiscalização de fundos de vales foram transferidas da AMA para a Comurb. A direção da Comurb diz que muitas áreas da cidade já foram atendidas neste período, mas que o trabalho será implementado depois que a equipe estiver completa com a contratação – por meio de concurso público – de novos profissionais.
A esquistossomose é uma doença que afeta o fígado, rins, coração e pode levar à morte se o doente não for medicado a tempo. É causada por um parasita que se hospeda e se reproduz em caramujos de rios sujos. Londrina teve, no ano passado, 91 casos da doença. Destes, 62 foram registrados entre moradores de assentamentos e favelas da zona leste da cidade, notadamente as localizadas próximas às margens do Córrego Londrina e do Ribeirão Água das Pedras.Caramujo transmissor da esquistossomose, conhecida como ‘barriga d‘água’, encontra na água poluída condições ideais de proliferação e contaminação
Fotos Dorico da SilvaFALTA DE ZELOLixo depositado na cabeceira do Córrego Londrina mostra uma das causas da poluição das águas: foco de caramujosCaramujo encontrado na bacia do córrego pela FNSTécnicos Antonio Marcelino e Jaime Clementino de CastroMário CesarRosângela de Oliveira, da Associação de Moradores

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