Talita Ribeiro
Agência Estado
Manaus - Nos municípios das áreas de fronteira do Amazonas, a questão da proibição ou não do comércio de armas pode parecer algo sem sentido prático no cotidiano de uma população de cerca de 100 mil pessoas. O Estado tem mais de 5.400 quilômetros de fronteiras internacionais, com Peru, Colômbia e Venezuela. Os municípios localizados nessa faixa são conhecidos como ‘‘corredores do tráfico’’ e responsáveis pela quase totalidade da entrada ilegal de armas e drogas na região. Também nessa área de selva, vivem ribeirinhos que fazem da caça sua principal fonte de subsistência.
  ‘‘Tem dezenas de milhares de armas ilegais no Amazonas. De janeiro a julho, fizemos uma caravana e visitamos 20 dos 62 municípios. Só conseguimos regularizar 1.300 armas de caça’’, conta o delegado da Polícia Federal e coordenador da Campanha de Desarmamento no Estado, Wesley Aguiar. ‘‘A realidade aqui é muito diferente. Não é o referendo que vai solucionar’’, avalia Aguiar.
  ‘‘Nume região onde 90% da população é formada por indígenas e os outros 10% são militares – e a maioria não tem nem carteira de identidade –, como conseguir o porte de armas?’’, indaga o pastor e jornalista Ton Vinhote, residente em São Gabriel da Cachoeira, a 858 quilômetros de Manaus.
  Em Tabatinga, a 1.105 quilômetros da capital, a situação é ainda mais tensa. A cidade é vizinha da colombiana Letícia e da peruana Santa Rosa. A tríplice fronteira é livre. ‘‘Raramente pedem documentos. Mesmo que desarmem a população, quem precisar vai até Letícia se abastecer’’, conta o radialista Francisco Lopes, residente na cidade há 15 anos.
  ‘‘Se a venda for proibida, acredito que o tráfico vai ser mais rentável’’, afirma o tenente-coronel Jorge Fernando Marques de Almeida, responsável pela 8ªBrigada de Infantaria de Selva, localizada em Tabatinga. Ele conta que, durante a Campanha de Desarmamento, apenas 20 armas foram entregues na região.

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