O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, anunciou ontem que a Fazenda Cordilheira, em Jundiaí do Sul (64 km ao sul de Jacarezinho), onde sete pessoas foram agredidas por sem-terra não será mais desapropriada. Ele disse que as famílias que estão acampadas serão levadas para outras áreas, exceto as pessoas que participaram da violência. Essas não serão cadastradas e responderão a inquérito policial.
O ministro anunciou ainda a criação de uma coordenação do ministério para cuidar dos problemas fundiários em São Paulo, sobretudo no Pontal do Paranapanema, em Mato Grosso do Sul, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
Jungmann comparou os sem-terra que invadiram a Fazenda Cordilheira, aos policiais militares acusados da morte de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás (PA), em abril do ano passado. ‘‘No instante em que se chega à barbárie que foi esse incidente em Jundiaí do Sul, a gente sente que isso não é mais reforma agrária, porque quem tortura é igual, se nivela a quem matou em Eldorado dos Carajás ou a quem queimou o índio Pataxó’’, disse Jungmann, em entrevista ontem à rádio CBN.
O ministro afirmou ainda que os sem-terra que invadiram a fazenda promoveram ‘‘cenas de tortura’’ e que tem ‘‘nojo’’ de torturadores. ‘‘Eu lutei contra a ditadura. Permito-me dizer que tenho nojo, nojo, muito nojo do torturador. E o que nós assistimos ali foram cenas de tortura’’.
‘‘Caso de polícia’’ No sábado, sem-terra que invadiram a Fazenda Cordilheira amarraram em troncos de árvore e rodas de carroça os fazendeiros Ney Mário Minardi e Haroldo Schweitzer, além de quatro seguranças e um motorista. Os sete ficaram amarrados por pelo menos quatro horas e foram torturados. Minardi teve vários hematomas pelo corpo e sofreu traumatismo craniano.
Além disso, os sem-terra incendiaram o carro de Schweitzer, um Vectra, e a Kombi que conduziu os seguranças até a propriedade. Também invadiram e destruíram a sede da fazenda. Para Jungmann, o incidente da Fazenda Cordilheira é um ‘‘caso de polícia’’. ‘‘A nossa expectativa é que a polícia, e sobretudo a Justiça, cumpra a sua parte. Quem fez isso tem de ser punido e tem de ir para a cadeia’’.
O ministro disse ainda que, apesar desse incidente, a negociação continua sendo o melhor caminho para a reforma agrária. Jungmann afirmou também que, para se evitar violência no campo, o processo de assentamentos tem de ser acelerado e a lei ser cumprida, ‘‘doa a quem doer’’.
Sobre os conflitos no Paraná, onde existem mais de 82 acampamentos em áreas invadidas, segundo o Incra, parte deles com reintegração de posse, Jungmann disse que, esgotadas as negociações, é preciso fazer cumprir a lei.
DepoimentosCinco pessoas envolvidas no confronto da Fazenda Cordilheira foram ouvidas ontem pelo delegado Tarcísio Cândido Carvalho e pela promotora Fábia Teixeira.
As autoridades afirmam ainda não ter elementos suficientes para pedir a prisão preventiva de qualquer um dos envolvidos. As 62 famílias já estão acampadas às margens da PR-218 para que o Incra realize hoje a vistoria na fazenda.
O líder do grupo, Idair Sebastião Ribeiro (Odair Macota), disse que se um sem-terra for preso, todas os acampados vão junto. ‘‘Serão mais de 200 pessoas presas aqui em Jundiaí do Sul’’, afirmou.
Macota reafirmou que o grupo ‘‘é totalmente independente’’ do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). ‘‘Não queremos ser confundidos’’. O local onde foi reerguido acampamento não tem água potável por perto. Duas crianças já foram encaminhadas para o hospital com diarréia. (Colaborou Luciane Tonon, de Cornélio Procópio)

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