'Corda arrebentou para lado mais fraco', dizem motoristas
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quarta-feira, 16 de julho de 2003
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
O relatório concluído esta semana pelo delegado Marcos Belinati, do 1º Distrito Policial (DP), apontou o motorista Neri Soares da Silva, da Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL), como único indiciado pelo atropelamento que matou o estudante Anderson Amaurílio da Silva, de 21 anos, no último dia 13 de junho. Se condenado por homicídio culposo (sem intenção de matar), ele pode pegar de um a três anos de reclusão. Para alguns colegas de profissão, contudo, o que aconteceu de fato foi que ''a corda arrebentou para o lado mais fraco'': um dos condutores da empresa, que não quis se identificar, confessou que, no dia do acidente, tanto o motorista quanto os demais companheiros foram pressionados por fiscais da empresa e por policiais militares a abrirem caminho, mesmo com a multidão que ameaçava com pedras e pedaços de pau nas mãos. Anderson foi atropelado durante protesto no Terminal Urbano contra o aumento da tarifa de ônibus, de R$ 1,35 para R$ 1,60.
''Vários de nós preferíamos esperar até que tudo se acalmasse, até por medo de ser atingido por algum manifestante'', conta ele, cuja linha estava na fila das que sairia, logo após o ônibus que atingiu Anderson. ''Foi um erro da PM, que abriu passagem, e da empresa, que ficou nos pressionando'', sentenciou. De acordo com ele, a praxe é que, em manobras em marcha a ré, os funcionários orientem os veículos. ''Naquele dia, a orientação não era para marcha a ré, mas, de qualquer jeito, não foi a mais adequada'', criticou. A Folha procurou o responsável pela fiscalização da TCGL, mas ele não foi localizado.
Já o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Londrina (Sinttrol), João Batista da Silva, concorda em parte. Segundo ele, os verdadeiros culpados pelo acidente ficaram livres de condenação. ''Lamentamos que a conclusão do inquérito não tenha ido além. Por que não falam de indiciar, por exemplo, os responsáveis pela panfletagem que causou o tumulto naquele dia?'', questiona.
Silva admite que, apesar de o responsável pelo ônibus, no instante do atropelamento, ser o motorista indiciado, ''Anderson estava muito próximo ao radiador do veículo, o que dificulta a visão de quem está ao volante''. O que, por sinal, não foi verificado pela reportagem da Folha, in loco: dos três tipos de carroceria utilizados pela TCGL, a do acidente (da marca Busscar) não impedia que uma pessoa da altura do estudante (1,63 m) fosse vista pelo condutor. Por outro lado, a constatação não reproduz fielmente as condições ideais do atropelamento, durante o qual outros participantes do protesto se posicionavam de frente para o veículo.
A TCGL, cuja assessoria jurídica é a responsável pela defesa de Silva, informou que não vai se pronuciar sobre o caso até que o Ministério Público dê o parecer final sobre o inquérito.


