Considerado um dos 12 bolsões de miséria da cidade de Porto Alegre, o cenário da Vila Pinto começou a mudar há quatro anos quando a líder comunitária Marli Medeiros criou a ONG Centro de Educação Ambiental, com o objetivo inicial de inibir a violência, o tráfico de drogas e a mendicância. ‘‘Fiz uma pesquisa com as mulheres do local para saber o que poderíamos fazer e uma das propostas foi conseguir uma renda para sair da situação de submissão’’, conta. Como Porto Alegre já tinha a coleta seletiva de lixo, surgiu então a idéia. ‘‘Fomos até o poder público e pedimos um espaço físico para criar nosso galpão de reciclagem’’, lembra Marli.
O projeto de uma cooperativa de reciclagem de lixo totalmente gerida pela comunidade ganhou reconhecimento internacional. No final de semana, a experiência foi apresentada em Londrina no 1º Fórum de Debate sobre Reciclagem e Tratamento do Lixo. Em seis meses de trabalho, a cooperativa da Vila Pinto já garantia renda para os seus 216 integrantes, mulheres em maioria. ‘‘Levantamos uma bandeira: não esperar que os outros façam pela gente.’’
A coleta seletiva é feita pela Prefeitura de Porto Alegre, que leva o lixo seco de 11 bairros vizinhos para o galpão da cooperativa. Lá, o material é separado em 32 tipos, colocado em fardos e comercializado. A renda é dividida entre todos os membros, que recebem de R$ 230,00 a R$ 270,00 cada um. ‘‘Temos um teto estabelecido: R$ 350,00. Quando chegarmos a esse valor, abriremos mais vagas para a comunidade’’, diz.
O projeto mudou a realidade do bairro, que tinha até toque de recolher. ‘‘Antes eram mais de 40 bocas-de-fumo. Hoje não chegam a 10. Em 1994, acontecia uma média de 51 estupros e ano passado tivemos índice zero’’, orgulha-se Marli, que tem viajado a convite de vários países para relatar sua experiência e já conseguiu apoio dos governos da Alemanha e da Itália.

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