Convite para missa de 7º dia provoca susto em médico
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segunda-feira, 14 de agosto de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Imagine você abrindo o jornal e se deparando com um convite para uma missa de 7º dia com seu nome em letras garrafais. Sensação estranha, que foi vivida pelo psicanalista Ailton Bastos no último dia 29 e retrata uma situação comum hoje em dia: deparar-se com homônimos. É sempre um susto. No caso do psicanalista, a primeira sensação foi de tratar-se de uma brincadeira de mau gosto. Depois de tudo esclarecido, ele também procurou o jornal para publicar um anúncio, desta vez, porém, uma nota de esclarecimento, avisando que continuava atendendo no mesmo endereço.
''Criou-se uma situação delicada. A família de um paciente meu viu o anúncio e ficou sem saber como contar à criança. Os pais então ligaram para um parente, que perguntou se eles haviam tentado falar comigo. Quando atendi ao telefone, percebi que ficaram constrangidos, e aí me falaram que tinham visto o convite para minha Missa de 7º Sétimo.'' A publicação foi feita justamente ao final de uma semana de recesso de Bastos, o que levou amigos e pacientes a supor que a sua morte havia acontecido nos dias em que estava de folga, por isso não tinham ficado sabendo.
Passado o susto inicial, vieram as consequências do suposto sepultamento do profissional. ''Percebi que na semana seguinte o telefone quase não tocou, num sinal de quem tinha a intenção de procurar atendimento na clínica, desistiu achando que eu estivesse morto.'' Ele lembra que veio de Goiás para Londrina há três anos, e que neste tempo vem trabalhando para construir a carreira aqui. ''Uma coincidência desta pode destruir todo um trabalho'', argumenta, lembrando que no caso dos profissionais liberais, o principal patrimônio de cada um é o próprio nome.
Em fevereiro deste ano a Folha noticiou o caso do comerciante aposentado Pedro de Lima, 47 anos, morador de Joaquim Távora (53 km ao sul de Jacarezinho), que teve descontado em sua aposentadoria de um salário mínimo o valor de R$ 90,00 mensais, por conta de um empréstimo feito por um homônimo. Também neste caso, os transtornos foram grandes até que a situação fosse esclarecida junto ao INSS e um Pedro de Lima ressarcisse o outro Pedro de Lima.
Foi para tentar evitar problemas como estes que o administrador de empresas Luciano Baldi da Costa resolveu trocar o nome da filha recém-nascida. ''Sempre tive o cuidado de escolher nomes práticos, que não suscitassem perguntas sobre a forma de escrever. Tínhamos uma lista com cinco nomes, mas como o meu sobrenome e o da minha mulher (Costa e Santos, respectivamente) são relativamente comuns, me veio esta preocupação da possibilidade de homônimos.''
Foi quando ele resolveu consultar o banco de dados de um cartório. Mesmo não tendo encontrado ali crianças com nomes e sobrenomes iguais aos que foram simulados para sua caçula, procurou um gerente de banco e pediu o mesmo favor. ''O resultado foi que apareceram várias pessoas com os mesmos nomes escolhidos e os mesmos sobrenomes que os nossos. Como eu já soube de pessoas que foram até presas no lugar de outras ou que tiveram o crédito suspenso por problemas causados por homônimos, decidi procurar outras opções de nomes.''
Encarregado de dar nome à menina (sua mulher havia escolhido o nome da primeira filha), o administrador optou por Isadora, e ficou mais tranquilo. ''Antes, chegamos a pensar em acrescentar mais um sobrenome ao nome dela, mas além de ficar muito longo, iria ser diferente dos sobrenomes da irmã.''
Para o cartorário do 1º Ofício de Registro Civil de Londrina, Eduardo Marques de Souza Pires, é praticamente impossível nos dias de hoje evitar que uma pessoa seja batizada igual a outra. ''Nome é algo muito pessoal e delicado, é difícil sugerir a troca na hora do registro. A não ser que a pessoa peça a opinião do funcionário do cartório, ficamos muito limitados'', justifica.
Segundo Souza Pires, as pessoas que têm preocupação com homônimos na hora de registrar os filhos são minoria. ''Temos um cadastro de nomes dos últimos 15 anos, que pode ser facilmente consultado, mas quase ninguém se preocupa com isso.'' Além disso, ressalta o cartorário, a maioria dos pais está optando por nome curtos, o que pode facilitar ainda mais as coincidências.


