Foz do Iguaçu - A conversa com aquele menino foi o suficiente para Heitor rever uma importante passagem da sua vida naquele fim de tarde, em Foz do Iguaçu. ''Tio, vai uma graxa? Se não gostar do trato, não precisa pagar'', propôs o pequeno Raul, agarrado a uma caixa de engraxate quase do tamanho dele.
De cara, o médico recusou a proposta, explicando que era impossível alguém lustrar um sapato de camurça. Iria ficar uma gosma só. A resposta do garoto foi imediata. ''Desculpe dizer, mas o senhor ainda é das antigas. Hoje já existe pasta para tudo que é tipo de calçado. Então, vai aí??'', perguntou mais uma vez.
Na dúvida se entrava ou não na Pastelaria Da Hora, no centro, Heitor aceitou a oferta, apesar do pouco dinheiro guardado no bolso e da vontade de comer um salgado. Feitas as contas, resolveu dar cabo dos dois últimos reais do dia: R$ 0,50 para a criança e R$ 1,50 para o lanche.
Enquanto fazia o serviço, o moleque descrevia relatos dos seus nove anos de existência. Nada muito surpreendente, mas tampouco irrelevante. Reclamou do peso da caixa, do roubo cometido por colegas mais velhos e criticou a concorrência dos adultos ''numa profissão que deveria ser exclusiva da criançada'', sempre penalizada pela falta de experiência em outros ramos.
A lista não parou por aí. Sobraram críticas aos pedestres desleixados com sapatos sujos, aos vigias que impedem o trabalho em frente de lojas na Avenida Brasil, à inflação que dobra o preço do material de trabalho a cada seis meses e, principalmente, à cobrança exagerada dos pais por grana no fim de cada dia e falta de tempo para frequentar a escola.
''Mas se é tão ruim, por que você está nessa?'', questionou Heitor. A resposta também mereceu uma lista. ''Através da graxa, conheço e converso com muitas pessoas, desde o mais milionário ao mais pobre, conto minhas aventuras e compartilho meus problemas como gente adulta'', respondeu, já quando finalizava o lustre.
Mesmo sem olhar para os pés, o médico pagou a quantia combinada. Depois de entregar as moedas, entrou na pastelaria com um pouco menos de dúvidas sobre como seria a carreira que um dia, ainda estudante, pretendeu trilhar. Ali, encostado ao balcão, Heitor se lembrou que, aos sete anos, ganhou dos pais uma caixa de engraxate. Com o passar do tempo, porém, resolveu buscar uma profissão com outro tipo de brilho.

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