Contribuinte, uma palavra estranha José SuassunaGermano Marques Cardoso: ‘‘Eu não sabia que precisava contribuir para ganhar aposentadoria’’ Michele Muller de Curitiba Aos 67 anos, seu Germano Marques Cardoso ainda não se aposentou. E nem vai. Até pouco tempo atrás, não conhecia a palavra contribuinte e nunca tinha ouvido falar no Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). ‘‘Eu não sabia que precisava contribuir para ganhar aposentadoria’’, conta. Em pouco mais de meio século de vida ativa, ele viu sua carteira assinada apenas durante três anos, quando atuou, na década de 70, como pedreiro na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), em Curitiba. Depois disso, passou a vender papéis recolhidos nas ruas da cidade – tarefa de grande parte de seus vizinhos na Vila Pinto, onde construiu uma casa de concreto para viver com a mulher e dois filhos adolescentes. O comerciante de papelão está entre os 4% dos chefes de família curitibanos que precisam sustentar pelo menos quatro pessoas com o salário mínimo (R$ 136,00), de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O valor que recebe semanalmente varia de absolutamente nada a até R$ 50,00. Seu Germano coordena seis catadores de papel da Vila e leva todo o material recolhido para uma empresa de reciclagem. ‘‘Quando chove a semana inteira, eles não conseguem trabalhar, então ninguém ganha nada’’, diz. Para garantir a comida na mesa de casa, precisa economizar o salário nas épocas de maior produtividade. Seu Germano não sabe ler nem sabe escrever o próprio nome. Mas aprendeu a importância da educação e faz questão que seus filhos terminem o segundo grau. ‘‘Só consegui trabalhar em construção porque há 20 anos era possível achar emprego sendo analfabeto. Hoje sem estudos não dá para trabalhar nem na rua’’, aponta.