Contrato de gaveta lesa três famílias
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segunda-feira, 05 de maio de 1997
Célia Baroni 
Warren NabucoPrimeiro a chegarJorge Rodrigues Forte, em frente à casa: Temos pena das outras famílias. Mas nós pagamos pela casa e não teríamos para onde ir O costume de fazer negócios de compra e venda de imóveis financiados pela Companhia de Habitação (Cohab) de Londrina usando o artifífico do contrato de gaveta virou caso de polícia. Uma mesma casa, na rua Yolanda Skomroneck 238, Conjunto Farid Libos (zona norte), foi vendida para famílias diferentes. Todas têm contratos registrados em cartórios, mas nenhum deles tem a anuência da Cohab.
Até ontem, três famílias haviam registrado ocorrência na 10ª Subdivisão Policial contra o vendedor André Luiz Aquino, por estelionato. Mas a polícia tem indícios de que existem outras vítimas do golpe. Cada família pagou cerca de R$ 6 mil a Aquino pelos direitos da casa. Os negócios foram fechados entre os dias 28 e 30 de abril. No dia da entrega, Aquino teria ligado a cada uma delas avisando para que fossem buscar as chaves e simplesmente sumiu. O golpe só foi descoberto pelos compradores no final da tarde de quarta-feira passada, quando algumas das famílias se encontraram em frente ao imóvel, prontas para iniciar a mudança.
Ao notar que tinham sido lesados, os compradores chegaram a entrar em atrito e a polícia teve de ser chamada para acalmar os ânimos. O motorista Jorge Rodrigues Forte, 36 anos, precisou brigar para garantir a mudança feita já na quinta-feira de manhã, no feriado de primeiro de maio. Vizinhos contam que seis famílias tentaram entrar na casa, no mesmo dia, afirmando que tinham comprado o imóvel.
Para impedir que outros invadissem a casa, Forte chegou a passar a noite de quarta para quinta-feira no local. Na manhã seguinte sua esposa, filha menor e a mãe viúva também se mudaram. Nós temos pena das outras famílias. Mas nós pagamos pela casa e não teríamos para onde ir. Agora a gente decide na Justiça quem fica com o imóvel mas, enquanto isso, minha família tem onde morar.
O motorista conta que para conseguir o dinheiro da casa teve de vender a casinha onde vivia no conjunto Maria Cecília (zona norte) e um pequeno imóvel da mãe. Os dois imóveis também tinham sido comprados através de contrato de gaveta. O pagamento a Aquino foi feito em duas parcelas: R$ 4 mil à vista e em dinheiro e R$ 2 mil em cheque com vencimento para o dia 25 de junho. Eu não vou sustar o cheque porque fiz o negócio e preciso da casa. Mas um cara deste deveria estar preso, afirma.
Na mesma situação, porém, estão o metalúrgico Francisco Assis Andrade, de 30 anos; o porteiro Valdevino dos Santos, de 60 anos, e o cobrador Roderley Augusto Arruda, que também pagaram pelo imóvel. Em todos os casos os compradores concordaram em fechar negócio através do contrato de gaveta e não se preocuparam com o fato do imóvel estar em nome de outra pessoa: Ilson Soares. Aquino também havia adquirido o imóvel através do mesmo sistema, e já era o terceiro proprietário.
As pessoas não têm noção do risco que correm utilizando este artifício, afirma o diretor administrativo da Cohab, Fernando Barros. Ele esclarece que este tipo de contrato não tem nenhuma validade legal para a Companhia, Seguradora ou para a própria Caixa Econômica Federal (CEF). Para nós o negócio não existiu. O carnê de pagamento continua com o nome do proprietário original e, em caso de morte dele ou sinistro, sua família é que será beneficiada com a posse do imóvel, frisa.
Barros acrescenta que a Cohab nada pode fazer em casos de venda irregular e orienta quem estiver negociando a procurar o órgão para obter informações sobre a situação do imóvel. A Cohab não tem levantamento do volume de contratos de gaveta existentes mas, segundo estimativa divulgada pela diretoria da Companhia, em 96 pelo menos 30% dos imóveis financiados pela Cohab, em Londrina, já tinham sido vendidos irregularmente a terceiros.
A polícia abriu inquérito para apurar o caso. Foram ouvidos os três compradores e iniciadas as investigações para descobrir o paradeiro de Aquino. Os documentos apresentados pelo golpista são do Rio de Janeiro e há suspeitas de que sejam roubados.


