''No começo, café, bebida alcoólica e doces me davam vontade de fumar. A gente acaba relacionando uma coisa à outra: tomar um café e fumar um cigarro, comer um doce e fumar um cigarro'', lembra a comerciante Regina Célia Saravy, referindo-se à época em que resolveu parar de fumar, depois de 35 anos cultivando o hábito. ''Tudo me lembrava cigarro, o dia inteiro. Tive que evitar o cafezinho, porque me dava vontade de fumar'', conta o advogado José Roberto Lissi Junior, também ex-fumante, sobre o que sentiu em sua primeira tentativa de largar o cigarro, por conta própria. Para muitas pessoas, abandonar o vício do cigarro se torna ainda mais sofrido em alguns momentos, como na hora do habitual cafezinho, ao sair para beber com os amigos, ou no churrasco dos domingos.

Conseguir parar de fumar não é uma tarefa fácil. Sabendo disso, pesquisadores e profissionais da área já uniram esforços para que, além do suporte psicológico e médico, orientações nutricionais auxiliem quem quer abandonar o vício. A vontade de fumar na hora do cafezinho e em outros momentos relacionados à alimentação, por exemplo, já foi constatado por um grupo de pesquisadores norte-americanos. Foram entrevistados mais de 200 fumantes sobre alimentação e tabagismo.

A pesquisa revelou que certos alimentos convidam o fumante a umas tragadas depois de comer. É porque, na visão dos entrevistados, alguns itens fazem o sabor do cigarro ficar mais agradável, como o café, as bebidas alcoólicas, o doce, a carne e os refrigerantes à base de cola. Nessa mesma pesquisa também se verificou que outros alimentos causam nos fumantes o efeito inverso: tornam desagradável o sabor do fumo. É o caso do leite, do iogurte, das frutas, dos legumes e dos sucos naturais que, por este motivo, atenuam a vontade de fumar.

Apesar desse trabalho ter entrevistado os fumantes apenas sobre os alimentos que despertavam neles a vontade ou não de fumar, a nutricionista Cristina Simões de Carvalho Tomasetti, de Londrina, diz haver fundamento científico sobre o café e as bebidas alcoólicas. Segundo ela, bebidas contendo álcool ou com cafeína em sua composição desencadeiam, sim, uma vontade maior de fumar, que pode estar associada tanto a aspectos comportamentais quanto fisiológicos.

Comportamentais porque é comum as pessoas associarem o ato de beber ou tomar um cafezinho ao cigarro. Fisiológicos porque ''tanto a cafeína como o álcool diminuem o pH do sangue, tornando-o mais ácido. E em meio ácido, a concentração de nicotina diminui, fazendo com que a pessoa tenha mais vontade de fumar para repor a substância no sangue'', explica Cristina, que é coordenadora do curso de Nutrição da Universidade Norte do Paraná (Unopar).

Quanto aos alimentos que diminuem a vontade de fumar, citados na pesquisa, a nutricionista faz uma consideração: ''Há que se lembrar que, além de diminuir a vontade, esses alimentos são mais saudáveis, têm vitaminas antioxidantes e são menos calóricos''. Vale a pena, portanto, tentar seguir a dica e consumir alimentos que atenuem o desejo de fumar.

A questão de que um cafezinho pode levar a um cigarro já é levada a sério, tanto que nas reuniões com grupos de fumantes que querem deixar o vício em um programa de abandono do tabagismo do Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), por exemplo, o lanche é oferecido aos participantes com sucos no lugar do café. A recomendação nas reuniões, segundo a coordenadora do programa, Márcia Regina Pizzo de Castro, é que alimentos que estimulam a vontade de fumar sejam evitados para facilitar o tratamento.

A alimentação, em geral, já é vista como parte do tratamento do tabagismo, tanto que o programa do HC conta com o trabalho de uma nutricionista que, entre outros assuntos, aborda com os participantes a importância de uma dieta equilibrada para evitar o temido ganho de peso depois de largar o cigarro.

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