Doença, morte, vício, dívidas. Se entregar ou superar? Grande parte das vezes, a primeira coisa que vem à cabeça de quem passa por situações como essas é desistir de tudo ou se revoltar. Ainda assim, por mais que os obstáculos pareçam intransponíveis, há quem dê a volta por cima, e mostre que sim, dá para enfrentar a dor. Para a admiração alheia vão além: transformam o sofrimento em trabalho e, a partir de suas histórias de vida, melhoram a de outras sem pedir nada em troca. Pessoas comuns mostram que mesmo com a dor, a vida pode e deve continuar.
Assim aconteceu com a dona de casa Sueli Farias Pereira. Depois de perder o filho de 15 anos há dez meses, vítima de um câncer, ela tem se dedicado ao trabalho voluntário na ONG Viver, que deu suporte à família quando o garoto fazia tratamento. ''Não esperávamos que fosse uma coisa tão grave. Quando descobrimos, foi um susto. Até porque meu marido tinha acabado de se recuperar de um infarto. Foram vários momentos de sofrimento, de angústia, de incerteza, mas que com o apoio dos amigos, médicos e a fé em Deus se tornou menos doloroso.''
Praticamente um ano de tratamento, sessões de quimioterapia, até que em abril do ano passado, a imunidade do garoto baixou e foi internado na UTI. ''Nessa época, eu passei a viver no hospital. Durante esse tempo, ele sofreu seis paradas cardíacas e não resistiu.'' Perder o filho lutando contra uma doença, com toda a vida pela frente, poderia ser motivo para Sueli desistir de tudo. Mas ela retirou forças de onde não imaginava para continuar a lutar. ''Depois que meu guerreiro se foi, percebi que poderia retribuir o que fizeram por mim.''
O retorno à casa se deu quando a filha mais nova disse que gostaria de rever os amigos da ONG. ''Fomos então a uma festa em homenagem ao dia das mães. Achei que não conseguiria entrar mais lá. Mas o apoio que recebi foi tão grande que me dei conta de que não tinha que morrer junto com meu filho e sim viver para fazer o que ele mais gostava: transmitir alegria. O Felipe dizia que o sonho dele era ficar bom para poder trabalhar, se formar em medicina e ajudar outras crianças na mesma situação. Tento fazer um pouquinho do que ele queria'', diz a mãe, emocionada.
Desde esse dia, ela ajuda como pode, fazendo tudo o que está ao seu alcance. Além de Sueli, a filha Ariadne, hoje com 15 anos, e o marido também participam. ''Não tenho um cargo dentro da ONG. Tudo o que posso realizar eu faço, como buscar doações, lavar a louça, limpar a casa, conversar com as mães que estão passando pelo que passei. Minha filha, por exemplo, brinca com as crianças que passam o dia lá, acompanha. Já meu marido, que é marceneiro, conserta, restaura e fabrica móveis que estão precisando. Ajudo com meu tempo'', diz Sueli.
Entre as atividades na ONG, ela divide seu tempo com a Pastoral da saúde da igreja de seu bairro. ''Faço visitas às casas dos doentes e àqueles que têm mais condição eu levo para irem à missa dos enfermos. Isso me dá mais garra para ir em frente, pois a dor da perda não passa, mas o trabalho preenche um pouco esse vazio que ficou.''
Para a psicóloga Jaqueline Queirolo há várias formas de superar a dor. ''Há quem prefira ficar recluso, outros, ajudar. E não há nenhum prejuízo nisso, pelo contrário, beneficiar outras pessoas só traz coisas boas. Trabalhar em prol de outras pessoas pode ser uma das formas de superação. Mas cada caso é único; para se 'elaborar o luto', cada um reage de uma forma.''

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