A demolição das construções existentes às margens do reservatório da Usina Mourão I, a 10 km de Campo Mourão, está entrando em contagem regressiva. O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) entregou na semana passada o relatório pedido pelo juiz federal Erivaldo Ribeiro dos Santos de tudo o que deve ser demolido na área. O documento inclui as casas, que acabaram beneficiadas com uma liminar expedida posteriormente .
Depois de intimados, os proprietários terão 30 dias para iniciarem as demolições. O relatório entregue à Justiça Federal diz que existem mais de 100 propriedades com algum tipo de obra a ser demolida. O número é superior a um levantamento anterior feito pelo órgão, que revelava obras irregulares em 74 propriedades. A maioria das obras que precisam ser demolidas são trapiches, garagens de barcos e quiosques.
Um dos mais antigos proprietários de casas às margens do chamado Lago Azul, Altevir Soavinski, acha que a decisão da Justiça não vai melhorar o meio ambiente. ‘‘Sou proprietário no lago há 30 anos e posso afirmar que hoje a área está mais reflorestada do que na época em que adquiri a propriedade’’, ressalta. Esse é um dos principais argumentos dos proprietários. Eles alegam que até a água do lago está mais limpa porque os moradores cuidam das margens.
‘‘É só comparar a nossa água com a água do Parque do Lago, que está vermelha’’, diz o presidente da Associação de Moradores do Lago Azul, Joaquim Viana Pereira Filho. O Parque do Lago citado por ele fica no perímetro urbano e é formado pelo represamento do Rio do Campo, o mesmo que abastece a cidade. Já o Lago Azul, formado pelo Rio Mourão, surgiu em 1964 com a construção da Usina Mourão, a primeira feita pela Copel.
‘‘Abandono não é sinônimo de preservação ambiental’’, ressalta o dentista Paulo Davidoff, dono há 15 anos de uma chácara às margens do lago. Ele entende que a Justiça deveria encontrar uma forma de conciliar a ocupação do lago com a preservação do meio ambiente. ‘‘As áreas não habitadas do Lago Azul são as que apresentam os maiores problemas, como o acúmulo de lixo’’, frisa. ‘‘Quem tem casa no local, tem interesse na preservação.’’
O presidente da Copel, Ingo Hubert, defendeu os moradores das margens do reservatório durante visita a Campo Mourão. ‘‘Tenho convicção que as encostas do lago são melhor cuidadas com a presença dos proprietários’’, disse. Segundo ele, os moradores também evitam depredações e invasões no local. Hubert afirmou que é contra qualquer tipo de demolição, mas admitiu que não saberia como resolver o problema.
Na ação judicial contra as obras às margens do Lago Azul, a Copel também é ré, assim como a Prefeitura de Campo Mourão, o governo do Estado e a União. Todos são acusados de omissão e de permitirem que as margens do reservatório fossem loteadas e recebessem construções. Assim como Hubert, Pereira Filho acha difícil uma solução jurídica para a questão. A única vitória até agora foi a suspensão da demolição das casas residenciais.
‘‘Vamos continuar tentando, mas acho difícil’’, diz o presidente da associação. Os proprietários já falam em recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). ‘‘Precisamos ganhar tempo para tentar uma solução política’’, admite Pereira Filho. Uma das esperanças dos moradores é alterar uma Medida Provisória em vigor desde o ano passado para que, ao virar lei, ela beneficie os proprietários da área.
Gildo Kwitschal, presidente de outra associação de moradores das margens do reservatório, reclama da demora para que os proprietários saibam o que podem e o que não podem fazer no local. ‘‘Compramos uma área loteada pela prefeitura e pagamos IPTU, mas não podemos fazer nada’’, queixa-se. Segundo ele, o loteamento foi definido antes de entrar em vigor o Código Florestal, em 1965.

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