Conta faz usuário desistir de telefone
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 1997
Osmani Costa 
Londrina
Os reajustes de 270% no valor da assinatura básica e de 60% no preço do impulso local, que entraram em vigor de forma parcelada nos últimos três meses, caíram como bomba nas contas telefônicas dos usuários da Sercomtel S/A Telecomunicações em julho. Os aumentos valem para todo o País, foram determinados pelo Ministério das Comunicações e fazem parte da preparação do setor para a privatização.
A assinatura básica residencial subiu de R$ 3,73 para R$ 13,82, e o impulso local de R$ 0,05 para R$ 0,08. Aumentou também o preço da ficha telefônica, de R$ 0,05 para R$ 0,06 (20%); ao mesmo tempo em que diminuiu o tempo de duração de cada ligação através de telefone público de três para dois minutos. Muitos usuários, principalmente os mais humildes e que têm linhas alugadas junto à Sercomtel, se assustaram com o valor da conta dos últimos meses e estão desistindo do telefone.
É o caso do vendedor de automóveis Francisco Salomão, que ontem à tarde foi pedir informações no setor de atendimento ao público da Sercomtel. Ele ficou sabendo que o aumento das tarifas é irreversível - foi determinação de Brasília -, resolveu pagar a conta atrasada e cancelar o aluguel da linha.
Subiu demais, está muito caro. Eu gastava perto de R$ 70 a R$ 80 por mês. De repente, aumentou para R$ 130, R$ 140 e R$ 150, nos últimos três meses. Assim, fica muito difícil pagar em dia, reclama Francisco Salomão, mostrando os extratos de suas últimas contas. De aluguel da linha, ele paga mensalmente R$ 22,50. Das 112 mil linhas telefônicas em operação atualmente em Londrina, cerca de 44 mil são alugadas junto à Sercomtel.
Outro que teve dificuldades para o pagamento da conta e devolveu a linha alugada foi o técnico em informática Eliseu Paixão. O preço das tarifas subiu demais e tornou o uso do telefone inviável para mim. O valor foi aumentando mês a mês e já estava gastando perto de R$ 350. É uma conta muito alta, afirma. Como depende de contatos telefônicos para trabalhar, ele optou pelo aluguel de um aparelho de bip-texto. O aluguel do bip varia de R$ 25 a R$ 35.
Também a vendedora autônoma Sueli Gomes estranhou o aumento na conta, nos últimos meses. A gente não reclama, porque precisa do telefone para trabalhar, mas o preço subiu muito recentemente. Estou precisando alugar uma outra linha, para trabalhar, mas vou fazer algumas contas antes de fechar o negócio.
O diretor de marketing e serviços da Sercomtel S/A, Walter Campanelli, diz que ainda não tem números exatos, mas que houve realmente um aumento na devolução de linhas alugadas nas últimas semanas e que o problema pode se agravar nos próximos meses. O reajuste nas tarifas ainda não gerou aumento na inadimplência, até porque só a conta de julho é que trouxe por completo os valores deste impacto iniciado em abril, explica.
Segundo Campanelli, as consequências do reajuste sobre a camada de usuários mais humildes só poderão ser avaliadas nos próximos três meses. Este grupo de usuários - principalmente formado pelas milhares de famílias de renda mais baixa que alugam linhas - zela muito pelo seu crédito e dificilmente fica inadimplente. Vamos ver qual será a reação destes usuários daqui para frente. Talvez, muitos desistam mesmo do aluguel; até porque, com o reajuste, a conta passa a comprometer uma parte maior da renda mensal deles.
O diretor da Sercomtel lembra que o reajuste nas tarifas locais - Determinado pelo Ministério das Comunicações e que cabe a nós apenas cumprir - ocorreu em razão do fim do subsídio anteriormente bancado com o dinheiro arrecadado com a ligações interurbanas regionais, nacionais e internacionais. Eram os chamados subsídios cruzados, de um tipo de ligação para outro, que agora foram extintos para facilitar a privatização do setor, coordenada pelo Governo Federal, comenta Campanelli.
As ligações interurbanas regionais e nacionais ficaram 32% mais baratas; enquanto que a tarifa das ligações internacionais diminuiu em média 17%. O problema deste realinhamento de preços é que o ônus, a conta mais cara, ficou exatamente para a camada de usuários mais humildes. Aqueles que têm telefone para o trabalho ou para uso quase que exclusivamente local, e dificilmente fazem interurbanos e muito menos os internacionais, avalia o diretor da Sercomtel S/A. Ele lembra ainda que os reajustes não incidiram nos custos dos aparelhos de telefonia celular, cuja assinatura básica mensal prossegue sendo R$ 35,94 e o valor da comunicação local é de R$ 0,37 o minuto. Em Londrina, estão em operação hoje cerca de 27 mil celulares.


