Foi-se a época em que, para ser ecologicamente correto, era preciso abandonar o estilo de vida urbano e adotar a natureza como refúgio. Em tempos de aquecimento global, é comum encontrarmos na cidade lojas de alimentos orgânicos ou que vendem produtos feitos de materiais reciclados, roupas de tecido natural e mesmo eletroeletrônicos que consomem menos energia.
Nasceu assim um novo tipo de consumidor que, ao mesmo tempo em que se preocupa com o meio ambiente e com os rumos do planeta, não abre mão do direito de consumir.
Essas pessoas foram chamadas pelo diretor de uma grande empresa de planejamento financeiro dos Estados Unidos de ''scuppies'', uma sigla para ''socially conscious upwardly-mobile person'', que no bom português significa algo como uma pessoa socialmente consciente e atualizada com as novidades tecnológicas. Chuck Failla disseminou a expressão através de um manifesto, que disponibilizou na internet. Nele, um scuppie é definido como alguém que deseja o melhor que a vida pode oferecer - modernidades, conforto e luxo -, mas que quer conseguir tudo isso de maneira ecologica e socialmente correta.
É o caso, por exemplo, de Luciana Kouri. A empresária londrinense do ramo do vestuário escolhe produtos naturais na hora de fazer compras. Para se alimentar prefere os orgânicos, que são levados para casa dentro das ecobags, as sacolas retornáveis. Os sofás da sala de sua casa são decorados com mantas de seda, tingidas com substâncias naturais. E a empresa que vendeu a manta para Luciana é maringaense. ''Se existem produtos brasileiros que são tão bons quanto os importados, por que eu vou comprar os estrangeiro? Deveríamos prestigiar empresas nacionais'', diz a empresária.
Luciana consente com o hábito verde também no trabalho. As duas lojas que possui em Londrina foram projetadas com estrutura de madeira de demolição, e os móveis, reaproveitados, foram adquiridos em uma loja de restauração. ''São móveis antigos. Pedi para dar uma restaurada, mantendo a cara de antigo, até para dar um ar diferente à loja'', conta.
A advogada Amanda Ramos Rodrigues não abre mão dos produtos de beleza, mas exige que eles sejam ambientalmente corretos. ''Uso os de uma marca francesa que utiliza plantas orgânicas no processo de fabricação. Eles são mais caros, mas prefiro pagar mais por um produto ecológico do que pelo convencional'', afirma. Vegetariana, Amanda também opta pelos alimentos orgânicos. ''Vou à loja de orgânicos toda semana. Dá para sentir a diferença no corpo'', diz.
Tanto Luciana como Amanda prezam pelo meio ambiente, e não têm problemas em consumir novidades. ''A gente pode continuar consumindo e ser ecologicamente e socialmente correto na decisão da compra, procurando saber de onde vem o produto e como ele é feito'', ressalta a empresária. ''Comprar um cosmético que você sabe que faz bem para sua pele e é produzido respeitando o meio ambiente, por que não?'', questiona a advogada.
Para o advogado da ong londrinense Meio Ambiente Equilibrado (ONG MAE), Carlos Eduardo Levy, é válido manter-se na moda desde que se compre bens que agridem menos o meio ambiente. ''Nem sempre a moda é perversa. Roupas e eletroeletrônicos de marca, feitos com materiais mais duráveis, podem coloborar para diminuir as agressões ao meio ambiente. A gente, às vezes, se espelha em modelos fúteis. E se a moda inserir concepções de consumo consciente, isso pode repercutir em toda a sociedade'', argumenta.
Bijuterias
Iniciativas locais de se oferecer produtos ecologicamente corretos não faltam. Iana Chayamiti, estudante do curso de Design de Moda da Universidade Estadual de Londrina (UEL) faz bijuterias a partir de lixo eletrônico, resultando em brincos, anéis e pingentes de placas de computador e fios de telefone. A ideia veio com uma proposta que precisava desenvolver para um projeto da universidade, mas as peças já foram comercializadas em feiras da cidade. ''Apesar de o material ser difícil de ser trabalhado, o resultado é realmente muito interessante e pretendo desenvolver novas peças'', anima-se a estudante. A matéria-prima vem de doações de empresas de eletroeletrônicos.

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