Londrina - Desde que uma equipe do programa Consultório na Rua passou a atuar em Londrina, há um ano e meio, metade da população em situação de rua já foi cadastrada para assistência no âmbito da saúde. Isso significa que das 300 pessoas que vivem nas ruas da cidade (segundo estimativa da Secretaria Municipal de Assistência Social), metade já gerou um prontuário de identificação. Esta estimativa não representa, no entanto, o número de abordagens realizadas. Segundo Ângela Lima, diretora de Serviços Complementares de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, a equipe só abre um prontuário quando há dados de identificação.
"Muitas vezes, essas pessoas não querem ser identificadas ou até mesmo não têm documentação. O último levantamento foi realizado no segundo quadrimestre deste ano, mas posso afirmar que também foram realizados atendimentos eventuais e que, por tais motivos, não geraram registros", explica.
Instituído em 2012 pelo governo federal, o Consultório na Rua tem o objetivo de ampliar a atenção do poder público a quem não tem onde morar. Porém, muito mais que aferir a pressão ou fazer testes de glicemia entre os sem-teto, a equipe formada por profissionais de assistência social, psicóloga, enfermeira, auxiliar de enfermagem e técnico de higiene bucal tem a missão de atuar de forma humanizada, respeitando as diferenças e promovendo a inclusão social.
Por se tratar de um serviço muito dinâmico, onde não se tem uma lógica preestabelecida, é preciso trocar experiências e discutir diretrizes. Sob este entendimento, o Ministério da Saúde enviou a analista técnica de Políticas Sociais e apoiadora para os Estados da Região Sul, Silvia Reis, para ministrar um encontro com a equipe de Londrina e Maringá nesta semana.
Foram dois dias de reuniões, com aproximadamente 40 profissionais. "O objetivo dessa capacitação é muito mais no sentido de trocar experiências do que uma formação em si. Como se trata de um serviço recente, ainda em construção, é preciso estabelecer se o rumo da nossa equipe está adequado e se atende as diretrizes estabelecidas", comenta Ângela.
Uma delas é que através do cuidado de saúde, os profissionais estabeleçam vínculos terapêuticos e façam o acompanhamento do indivíduo em situação de rua, dentro da rede de serviços, encaminhando-o para as áreas necessárias, seja uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou para uma situação de moradia ou então, atendimento para álcool e outras drogas. Porém, sempre no âmbito da saúde.
"Qualquer situação de saúde é o gatilho para nós estabelecermos um vínculo. Nosso objetivo é realizar pequenas intervenções como verificação de pressão, coleta de escarro para exame de tuberculose, teste de glicemia ou até mesmo um curativo. Mas nada invasivo, pois a equipe não contempla um médico e, portanto, não fazemos nenhum procedimento medicamentoso. É uma abordagem dentro das possibilidades da equipe multidisciplinar", salienta.
A assistente social Marilys Garani, que integra a equipe de Londrina, diz que o processo de qualificação é de extrema importância, pois "é preciso estabelecer relações não só com os moradores de rua, mas também entre os profissionais".
Marilys está desde o início no projeto e afirma que a equipe busca descobrir quais são as questões que o indivíduo pode enfrentar para buscar dignidade. "Nosso trabalho é uma verdadeira doação, pois todos os dias temos que fazer uma leitura bem diferente do senso comum", declara.
O Consultório na Rua é uma estratégia de atenção à saúde realizada no próprio local onde vive a população de rua. As abordagens são programadas e acontecem nos períodos da manhã e tarde. De acordo com Ângela, já existem áreas definidas como cenas de uso. No Paraná, o programa é realizado em Londrina, Maringá e Curitiba.

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