Consulta no HU? Procure o pasteleiro
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quinta-feira, 27 de março de 1997
Adriana De Cunto 
Engana-se quem pensa que o primeiro passo para conseguir uma consulta no Hospital Universitário de Londrina é dirigir-se até um guichê de atendimento. Antes de tudo é preciso passar pelo quiosque do pasteleiro Baiano, bem na frente do HU, e marcar o nome na lista dos pacientes que buscam uma consulta nas 30 especialidades oferecidas pelo hospital. O procedimento não é novo, nem se trata de um serviço terceirizado pela instituição. A iniciativa de concentrar a lista na barraca do pasteleiro Manoel Fernandes Filho, 50 anos, é dos próprios pacientes e já tem três anos.
Antes da lista ficar comigo, dava muita confusão. Tinha gente que furava a fila, tinha muita briga, lembra o pasteleiro. Agora não. Eu organizo tudo direitinho. A lista de espera organizada pelo pasteleiro não é a oficial do HU, que fica na avenida Roberto Koch, bairro Cervejaria (zona leste). Trata-se de uma lista feita para os pacientes que vão dormir na fila na tentativa de marcar uma consulta seletiva para todas as áreas, como ginecologia, cardiologia, gastroenterologia.
A marcação das consultas é muito concorrida. Para cada especialidade, é aberto um número de vagas que são ofertadas à comunidade uma vez por mês - dependendo da área médica. Para não passar muito tempo na fila, os pacientes vão até o HU na véspera do dia da marcação, procuram o pasteleiro e deixam o nome marcado numa folha de papel. E assim a lista é organizada.
No começo da noite, quando os pacientes começam a chegar no HU e procuram um lugar para dormir - as consultas são marcadas no dia seguinte, logo pela manhã - eles buscam a lista com Manoel Filho e se organizam conforme a relação do pasteleiro.
Manoel Filho garante que não cobra nada pelo serviço. Eu quero ajudar o HU e as pessoas que vêm aqui procurar um médico, afirma. Trabalhando há 21 anos em frente ao hospital e só com o 2º ano primário, o pasteleiro demonstra que conhece quase tudo sobre o procedimento de marcação de consulta e as especialidades médicas. Se o paciente vem aqui sem o encaminhamento, eu nem marco o nome dele na lista. Ele diz que o hospital marca a consulta conforme encaminhamento (guia de apresentação) do próprio HU ou de outros órgãos da área da saúde.
Eu confiro qual a especialidade que o encaminhamento indica, se otorrino, oftalmo, vascular... Procuro a lista e preencho o nome da pessoa, explica Manoel Filho. Ele acredita que 80% dos pacientes que vão até o HU já passaram pelo seu quiosque. Todo mundo me conhece, orgulha-se.
As consultas são marcadas pelo HU, mas realizadas no ambulatório do Hospital das Clínicas, ao lado da Universidade Estadual de Londrina, na zona sul. Ontem, como nenhuma especialidade havia lançado vagas para consulta, o movimento era pequeno no quiosque de Manoel Filho.
A doméstica Maria Aparecida Marques da Silva, 31 anos, moradora do conjunto Ernani Moura Lima (zona leste) levou a filha no HU, ontem, pela manhã, para uma revisão. Tamila Marques da Silva, 7 anos, submeteu-se a uma cirurgia de garganta na semana passada. Ela contou que, desta vez, não precisou passar pelo quiosque do pasteleiro. Mas lembrou que já colocou o nome em uma destas listas e dormiu na fila do HU para marcar uma consulta, há alguns anos. Eu passei a noite na fila e consegui marcar uma consulta para depois de três meses, conta Maria Aparecida. Após a consulta, ela esperou mais três meses para fazer uma cirurgia nos olhos.


