Lorena Aubrift Klenk

Arquivo FolhaMortesDesabamento do Edifício Atlântico em 1995 vitimou 29 pessoasDoze famílias que possuíam apartamentos no Edifício Atlântico, que desabou em Guaratuba, Litoral do Paraná, no dia 28 de janeiro de 1995, fecharam no início deste mês um acordo de indenização com o engenheiro Ney Baptista Torres, responsável pelo projeto e construção do prédio. Segundo um dos ex-proprietários, o promotor de Justiça Sérgio Sinhori, cada família receberá em torno de R$ 25 mil. Ficaram fora do acordo duas famílias que ainda lutam por indenizações maiores. Cada uma delas perdeu três integrantes na tragédia, que no total matou 29 pessoas.
O Edifício Atlântico tinha 16 apartamentos, mas apenas 14 tinham sido vendidos para terceiros e foram objeto da negociação, que aconteceu extra-judicialmente. ‘‘Foram mais de dois anos de conversas e as últimas pessoas assinaram os papéis no início do mês’’, disse Sinhori.
Segundo ele, Torres entregou ao grupo dois apartamentos, duas lojas e dois terrenos - todos em Guaratuba - que, rateados, resultarão em cerca de R$ 25 mil para cada família. Na época da tragédia, apenas o valor de cada apartamento foi estimado em R$ 70 mil.‘‘A indenização representa um quarto do prejuízo que tivemos, mas foi o acordo possível e preferimos evitar mais desgastes’’, disse Sinhori, que não perdeu familiares no desabamento.
Não assinaram o acordo a família do então prefeito de Tomazina, Ivaldo Alves Costa - que morreu sob os escombros com dois filhos, de 4 e 12 anos - e Polliana Pundeck, que perdeu os pais e o irmão na tragédia. ‘‘Quem perdeu a família não foi indenizado. Esse acordo foi feito entre amigos do dono da construtora Torres’’, disse ontem o marido de Polliana, José Luiz Pasini Branco. Ele afirmou que a mulher não recebeu qualquer proposta de indenização.
Polliana foi uma das sete pessoas resgatadas vivas dos escombros do edifício. Passou cinco meses hospitalizada e, segundo o marido, ainda tem sequelas.‘‘Ela perdeu musculatura na perna e até hoje faz fisioterapia, sem qualquer ajuda da família Torres’’, disse.
Apesar disso, Polliana, de 23 anos, conseguiu retomar sua vida. Casou-se há quatro meses e este ano formou-se em Arquitetura pela PUC. ‘‘Mas ela nunca mais quis voltar para Guaratuba’’, diz o marido.
Já o promotor Sérgio Sinhori continua indo à cidade e este ano até saiu na banda de Guaratuba. ‘‘Não tenho ódio pelo que aconteceu, mas lamento que não tenha tido um sentido pedagógico e que muitas pessoas continuem sendo negligentes com a vida humana’’, diz, referindo-se ao desabamento do Edifício Palace, ocorrido domingo no Rio de Janeiro.
O processo criminal sobre o desabamento em Guaratuba - no qual Ney Torres é acusado de 29 homicídios culposos - está suspenso desde 96, graças a uma lei que permite a suspensão condicional de ações por crimes com pena de até dois anos de detenção e cometidos por réu primário. O processo só será retomado se Torres deixar de cumprir as condições estabelecidas - entre elas, prestar serviços à comunidade. Se tudo for cumprido, o processo será extinto e a única punição para Torres continuará sendo a cassação de seu registro de engenheiro, decidida em 1996.

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