Lucinéia Parra
Enviada a Tapira
A construção de três praças públicas se transformou em polêmica em Tapira (96 km a nordeste de Umuarama). De um lado está o prefeito Vagner Batista de Souza (PFL) e os moradores dos distritos Gleba Quatro, Santa Felicidade e Ouro Verde Alto. Do outro, está o padre da paróquia Nossa Senhora do Rocio, Jorge Purcino dos Santos, e os moradores da cidade de Tapira.
O prefeito e os moradores dos distritos querem a construção das praças e nem pensam em considerar os apelos da igreja. Já o padre, que tem o apoio do arcebispo de Umuarama, dom Friedrich Heimler, diz que as praças revelam apenas a necessidade da atual administração pública em ‘‘deixar marcas através de obras’’. Os moradores de Tapira concordam com a opinião do padre e afirmam que em vez de praças o prefeito deveria pagar os salários atrasados dos servidores e dar mais atenção ao setor de saúde, principalmente à questão dos medicamentos.
A polêmica começou quando a prefeitura autorizou, sem comunicar a Arquidiocese de Umuarama, o início da obra da praça ao redor da igreja do distrito de Santa Felicidade, que tem cerca de 800 moradores. O terreno, diz o padre, pertence à Igreja e foi doado pela Sociedade Colonizadora Paraná Ltda. Segundo ele, os moradores de Tapira, como dos três distritos, têm outras prioridades que mereceriam mais atenção por parte da administração pública.
‘‘Em Tapira, o posto de saúde está em reforma há quase um ano e o atendimento está sendo feito em um lugar deplorável’’, argumenta. ‘‘O posto de saúde vai ficar bom depois de concluída a reforma, mas e até lá?’’, questiona. O que mais intriga o padre, entretanto, é a forma como foi decidida a construção das praças.
‘‘Não entendo muito de política mas sei que para fazer uma obra pública é preciso licitação e através dela haverá uma empresa vencedora, que por sua vez vai informar o valor da obra. Aqui em Tapira, não tenho conhecimento da licitação e ninguém sabe quanto vai ficar a construção das três praças.’’
Através de um ofício encaminhado no dia 23 de novembro ao prefeito de Tapira, o arcebispo Heimler pede a suspensão da construção da praça no distrito Santa Felicidade em função dos salários atrasados do funcionalismo, endividamento do município e do fechamento do posto de saúde nos distritos Santa Felicidade e Ouro Verde. Para construir as praças, o prefeito contraiu recursos do Paraná Urbano e a dívida deverá ser quitada nas próximas legislaturas. Conforme Heimler, a Mitra Diocesana de Umuarama não concorda com a interferência da prefeitura sobre o patrimônio da igreja.
Em reunião realizada início deste mês entre o prefeito, o arcebispo, o padre, vereadores e secretários municipais, o prefeito teria dito, conforme o arcebispo Friedrich Heimler, que havia solicitado a paralisação da obra atendendo ao pedido da Igreja Católica. O prefeito, no entanto, garante que a obra será retomada tão logo seja inaugurada a praça no distrito Gleba Quatro.
Ele assegura que o terreno pertence à prefeitura e que a escritura está no tabelião de imóveis de Cidade Gaúcha. ‘‘O padre e o arcebispo dizem que eles têm a escritura só que eles não mostram. Então nós vamos ver quem tem direito sobre o terreno’’, desafia Souza.
Segundo ele, as denúncias da igreja são infundadas e têm como interesse o mando político. ‘‘Ano que vem é ano de eleição e a oposição de Tapira gira em volta do padre. Eles ficam lá falando coisas que não têm nada a ver para o padre, mas eu não estou nem aí. Eu sou do povo e estou fazendo as obras que são do desejo dos moradores.’’
Sobre o fechamento do posto de saúde para reforma há cerca de um ano, Souza explicou que a obra já está ‘‘quase concluída’’ e que a unidade será inaugurada em janeiro. A demora na reforma, conforme o prefeito, foi em função da ampliação – passou de 320 para 420 metros quadrados.
Quanto ao pagamento atrasado dos servidores, ele se defendeu afirmando que 50% do funcionalismo está com quatro meses de salário atrasado desde 1996. ‘‘A dívida é do ex-prefeito. Na minha gestão, o pagamento está em dia e até o 13º salário foi pago integralmente a todos os funcionários.’’Prefeito tem apoio de comunidades de distritos onde obras estão sendo realizadas, mas enfrenta resistência de padre
Fotos Marcos NegriniDISCÓRDIAIgreja do Distrito Santa Felicidade, onde a prefeitura iniciou a terraplanagem para construção da praça pública; obra foi paralisada porque a igreja alega ser a proprietária do terrenoPadre Jorge Purcino: ‘‘Administração quer deixar marcas com obras’’Prefeito Vagner Batista: ‘‘As praças são desejadas pelos moradores’’Moradores de Santa Felicidade são indiferentes aos argumentos da igrejaEva Moura Fernandes: ‘‘Por que a prefeitura não ajuda quem precisa?’’