Considerações sobre o tempo em Curitiba
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de outubro de 1998
Eloi Zanetti 
Já virou mania, todos os dias, quando estou em casa e o homem do tempo vai apresentar as previsões dos próximos dias, aposto com os meus filhos: Vai ter uma nuvenzinha negra bem em cima de Curitiba. Não dá outra, ganho na certa. Às vezes, fico pensando em deixar a máquina fotográfica armada, 365 dias, em frente à minha TV e clicar cada vez que a nuvenzinha negra aparece. No final do ano tenho a intenção de juntar tudo, fazer uma peça de arte e apresentar na Bienal. Poderá se chamar: O Homem do Mau Tempo.
Aliás, o curitibano já está se acostumando e encarando numa boa ter que morar neste enorme banhado. As conversas aqui sempre começam com: - Está frio hoje hein! - Esfriou hein! - Puxa cara, que chuva! - Será que vai gear?
Não é à toa que aqui, no ano passado, o verão caiu numa sexta-feira e que só temos duas estações, a rodoviária e o inverno. Pessoas que trabalham com produtos de verão contam que nos últimos anos tivemos por temporada uma média de apenas 12 dias de sol direto nas nossas praias. O verão do curitibano chega a ser mais curto que o do Canadá ou da Dinamarca.
Tenho um amigo do Norte do Paraná que nos chama de moradores do Vale dos Dinossauros. Lembram-se deste velho filme, o vale se apresentava envolto numa misteriosa e densa nuvem de neblina. Quer uma prova, é só você chegar à cidade pela Rodovia do Café. Na altura de São Luiz do Purunã, o tempo ainda estará com sol brilhando, mal você começa a descida da serra, aparecerá na sua frente uma densa e grossa nuvem de neblina. Aliás, os antigos habitantes do lugar não deixaram registradas nos sítios arqueológicos locais as pinturas rupestres, representando a figura redonda do sol. Um importante arqueólogo chegou a observar que eles adoravam um estranho deus retratado na imagem de um sapo e com um nuvenzinha preta em cima.
Já que em respeito de tempo a gente vive entrando em fria, preste atenção, recebemos frentes frias de todos os lados; dos Andes entrando pelo Paraguai, do Sul pelo Uruguai e Argentina e até as famosas frentes estacionárias que entram pelo oceano e teimam em ficar dias e dias sobre as nossas cabeças. E pasmem, as frentes que vêm do Norte, da Bahia por exemplo, quando chegam aqui, misteriosamente, de frentes de calor, viram frentes frias.
Se você vir alguém, em qualquer aeroporto do país, com agasalho na mão, com certeza é curitibano. Ele sabe o que lhe espera ao desembarcar. Já vi pessoas quase morrerem de hipotermia, descendo corajosamente no Afonso Pena, vestidos de bermudas, sandálias e camisetas em pleno mês de novembro, debaixo da causticante temperatura de três graus positivos. Aliás, já cheguei a inaugurar uma lareira em minha casa em pleno dia 27 de novembro.
Falando do nosso aeroporto, dizem que ele só ganha em contagem de dias fechados por mau tempo para o aeroporto das llhas Malvinas, ou Falkland como querem os ingleses.
Curitiba é o único lugar do mundo, onde temos a marca de mais de 100% de umidade relativa do ar. Há poucas semanas, a umidade era tanta que flocos de chuva fina dançavam na nossa frente. Pareciam blocos de neves, sem o espetáculo e os benefícios da neve, é claro.
Aqui, os finais de semana geralmente começam com tempo chuvoso nas sextas à tarde e terminam com um belo sol aparecendo nas segundas. E todos os feriados prolongados, sejam eles em datas fixas ou variáveis, são brindados com uma bela temporada de chuvas, trovoadas ou muita garoa fria. Aquelas que chegam a doer os ossos. O habitante de Curitiba não tem direito ao sagrado repouso remunerado debaixo do sol.
Um dia desses, eu estava na fila do aeroporto em São Paulo e um mineiro puxou conversa comigo. Quando soube que eu era de Curitiba exclamou: Morei quatro anos na sua cidade. Uma vez meu sogro passou uma temporada conosco. Ele contou que ficou sem ver o sol por 68 dias. Acreditei na hora.
Um vizinho meu, ficou preocupado e está pensando até em se mudar da cidade. Sua filha de três anos lhe perguntou. Pai o que é mesmo o sol?
Um outro amigo, preocupado com um problema que seu filho estava tendo no ouvido foi ao médico e de lá direto para um botânico. Identificaram um pé de xaxim nascendo no ouvido do menino. É o excesso de umidade - falou o botânico: plantas exóticas, fungos e bactérias adoram este composto: pressão, temperatura, umidade. O xaxim é uma planta pré-histórica. Lembrei-me da história do Vale dos Dinossauros.
Não é a toa que os melhores especialistas do mundo em doenças pulmonares, gripes, resfriados e tudo que for ligado a doenças respiratórias e amolecimento de pele estão em Curitiba. E, com certeza, vão muito bem nas suas profissões; clientes é que não faltam.
Um outro amigo viveu debaixo de remédio anos a fio. Estava desenganado, desafiando a santa mãe natureza. Mudou-se para Londrina.
Foi incrível como ele melhorou da noite para o dia. Na sua ingenuidade comentou: será que o clima daqui está me fazendo bem ?
O curitibano já se acostumou tanto em apanhar do tempo, que sai de casa pela manhã, super agasalhado, debaixo de uma temperatura de cinco graus; lá pela hora do almoço já estará usando camiseta e suando às bicas. À tarde pega aquele friozinho com direito a vento gelado. À noite, ele vai dormir debaixo de três grossos cobertores Parayba. É usual acontecerem as quatro estações do ano num só dia. O velho Darwin tinha razão, a natureza já está se encarregando de fazer as adaptações necessárias. Tem criança já nascendo de galocha, capa e guarda-chuva.
Gabriel de Lara, Mateus Leme e os que plantaram a pedra fundamental da Vila da Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, bem que poderiam ter andado mais alguns quilômetros e fundado nossa cidade em outro lugar. Hoje, a gente tem que ficar por aí, perambulando triste pelas ruas, esperando por uma réstia de sol. E na falta de vida ao ar livre, passamos nossos domingos assistindo Gugu, Faustão ou com um pacote de vídeos ao lado de uma tigela de pipocas. Nossa cidade é campeã em aluguel de fitas de vídeo. É o lugar onde mais se assiste mais horas de TV no Brasil. E quando o sol vem, estamos tão desacostumados que não sabemos o que fazer com ele. Saímos das nossas tocas mais brancos que galinha de porão, porque sol que é bom só a alguns quilômetros daqui. Olhe a nuvenzinha da TV, veja onde ela acaba. Escolha qualquer lugar fora dela. Natal, por exemplo, nos inveja com 314 dias de sol por ano. O pai de uma amiga minha, de tanto ver escorrer água pelas paredes da sua casa, tal era a umidade do dia, e de tanto ver as suas melhores camisas pegarem bolor no guarda roupa exclamou num rompante:
- Filha, vê pra mim, aí no mapa, onde é que fica o tal do Polígono das Secas e me compra uma passagem pra lá.
Mas apesar de tudo, esta cidade é muito boa, gostosa de viver. É só dar tempo ao tempo e aceitar esta vida numa boa. O clima no mundo está mudando, talvez a gente consiga sair logo desta endêmica era curitibana glacial-chuvosa. Daí, então viveremos no melhor dos mundos. Em se tratando de clima, o povo de Los Angeles ainda vai morrer de inveja da gente.
(galinha de porão - nas antigas casas dos curitibanos cultiva-se o hábito de se criar galinhas debaixo do porão. Com o tempo, por não pegarem sol elas desbotavam e ficavam com uma cor pálida. Se você ver um curitibano nos primeiros dias de praia, esta é a cor que ele vai apresentar. E por falta do costume de se expor ao sol no primeiro dia, ele não fica bronzeado, pega uma horripilante cor de água de vina.)
Eloi Zanetti, publicitário - já passou 51 invernos em Curitiba.
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