Uma peça descosturada, um salto quebrado, um sapato ou tênis furado. Pequenos estragos em roupas e calçados nunca foram motivo para jogar fora. A economia, no entanto, parece estar com os dias contados. E não é por falta de freguês querendo um remendo ou conserto simples. Para profissionais do ramo, a escassez é de mão-de-obra. Poucos jovens querem aprender o ofício. Por outro lado, a procura pelos serviços ainda é grande e deve permanecer assim.
Portanto, quem quer consertar peças de roupa ou sapatos deve aproveitar os profissionais que ainda estão no mercado. E os sapateiros e costureiras são unânimes em afirmar que os consertos, quando viáveis, são uma boa opção. Os especialistas também são solicitados por clientes que preferem peças sob medida.
A clientela é heterogênea. Porém, um traço comum une os fregueses. Muitos querem consertar roupas ou sapatos por causa de um valor sentimental, por motivos pessoais ou familiares. Em alguns casos, o conserto nem é financeiramente recomendado. Mas os laços de afeto parecem ser intrínsecos nos ramos dos sapateiros e costureiras, assim como muitos profissionais declaram amor pela profissão.
A professora aposentada Maria Aparecida Toledo Costa, 74 anos, é cliente do mesmo sapateiro desde praticamente a juventude. Para ela, a dificuldade para encontrar sapatos confortáveis justifica a busca pelos serviços do profissional. ''É difícil achar um que seja confortável. Por isso, é bom consertar o que a gente tem'', opina.
O responsável pelos consertos dos calçados de Maria Aparecida é João Móvio, 58. Sapateiro desde os 12 anos, ele diz que já enfrentou concorrência maior e prevê um futuro nada promissor para o ramo. ''Os jovens não querem aprender. Acho que é por causa da sujeira'', arrisca o profissional, cuja clientela foi cultivada desde a época quando trabalhava como empregado.
A sapataria está sempre abarrotada de peças. O trabalho tem de ser rápido, já que a maioria dos consertos é barata. O mais básico é o reparo no salto de sapatos femininos. Mas João Móvio é um exemplo de que é ainda possível sobreviver do ofício. Até hoje paga a o crédiro educativo da faculdade da filha, formada em fonoaudiologia.
Ele conta hoje com o auxílio de um funcionário e prevê a extinção dos sapateiros. Consequentemente, os clientes interessados em consertar sapatos não têm muito tempo restante para contar com o serviço, manter as peças com valor afetivo e, até mesmo, fazer um pouco de economia.

mockup