O Conselho Tutelar de Campo Mourão está iniciando uma campanha para tentar evitar um dos principais símbolos do trabalho infantil: a venda de sorvetes por crianças. Uma reunião com donos de 10 sorveterias na cidade decidiu que não será mais tolerado o trabalho de menores de 14 anos e, de 14 a 16 anos, somente em casos especiais.
‘‘Muitas crianças entre 9 e 11 anos estavam trabalhando como sorveteiros pelas ruas da cidade’’, afirmou o presidente do Conselho Tutelar, Samuel Kozelinski. Pelo compromisso assumido anteontem, os comerciantes só poderão aceitar adolescentes a partir de 14 anos se eles estiverem estudando, com boas notas, e puderem fazer um trabalho de aprendizagem.
‘‘As sorveterias terão que permitir um trabalho interno desses meninos para que eles também aprendam a fazer o sorvete’’, explicou Kozelinski. De acordo com ele, esses casos serão tratados como especiais para evitar problemas sociais ainda maiores. Em Campo Mourão, um programa já tirou 159 adolescentes do trabalho. No programa, eles agora recebem R$ 40,00 por mês.
Kozelinski acredita que o trabalho de sorveteiro incentiva os meninos a deixarem a escola. Segundo ele, dos quase 150 meninos que vendem sorvetes pelas ruas cadastrados pelo conselho, apenas três preencheram os requisitos para participar de um curso profissionalizante: ter idade mínima de 14 anos e concluído o ensino fundamental (até a 8ª série).
O comerciante Joabe Quiuli Ferreira, dono de uma sorveteria em Campo Mourão, disse ontem que são poucos os meninos menores de 14 anos que trabalham como sorveteiros. ‘‘Não vamos sentir muita diferença’’, disse. Tiago Correia da Silva, 14 anos, contou à ‘‘Folha’’ que vende sorvete para ajudar o pai. ‘‘É o jeito. Já me acostumei’’, ressaltou.
Matriculado na 6ª série, Tiago disse que ganha, em média, R$ 4,00 por dia. ‘‘Teve um dia que deu só R$ 1,50.’’ O pai do menino, José Correia da Silva, também vende sorvetes. ‘‘Tenho uma carroça em casa, mas não dá nada. A gente fica muito tempo parado’’, explicou. Silva disse que se o filho não puder trabalhar, terá que pedir uma cesta básica à prefeitura.

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