Edson Mazzetto




Obras apressadasO secretário Heinz Herwig na BR-277, próximo do município de Ibema: pelos 2 mil quilômetros do Anel passa 70% da produção paranaense; para Lerner, faltou sensibilidade das concessionárias que construíram as praças de pedágio antes de iniciar as obras de duplicação previstas nos contratos

O governo do Paraná está empenhado em conter o movimento que se alastrou em todo o Estado contra a cobrança de pedágio em rodovias do chamado Anel de Integração. As rodovias foram entregues à iniciativa privada que fará melhorias e cobrará pedágio. As manifestações contrárias ao pedágio têm como argumentação principal que muitos trechos sequer foram duplicados. O governador Jaime Lerner (PFL) garante que a cobrança somente será autorizada após a aprovação das melhorias por conselhos de usuários das rodovias. Estes conselhos ainda serão formados.
O assunto será debatido segunda-feira pelo secretário dos Transportes Heinz Herwig na Assembléia Legislativa, a convite dos deputados. Herwig diz que o debate acontecerá ‘‘em todos os lugares onde possa ser mostrada à população a importância do projeto’’. Anteontem à noite ele esteve em Cascavel, onde falou a empresários. Antes, esteve em Ibema (50 quilômetros a leste de Cascavel), à margem da BR-277, a convite da Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop). Aparentemente, ele conseguiu convencer os prefeitos.
O secretário e o governador, que também esteve em Cascavel, manifestaram a convicção de que as empresas que vão explorar as rodovias (por 24 anos) erraram ao apressar a construção das praças de pedágio, cujas obras são mais visíveis que as melhorias nas estradas. ‘‘Faltou um pouco de sensibilidade’’, disse Lerner. O governador observa que as obras chamam a atenção e aguçam a contestação. ‘‘Também faltou maior esclarecimento à população’’, acrescentou Herwig.
O secretário dos Transportes garante que o governo não teve outra alternativa para melhorar as rodovias, inclusive as federais, a não ser fazer as concessões à iniciativa privada. ‘‘O governo federal não tinha qualquer previsão para melhorias e menos ainda duplicações’’, observou. Lerner disse que o Estado considerou que pelo chamado Anel de Integração (mais de 2 mil quilômetros) passa 70% de toda a produção paranaense.
Heinz Herwig citou estudos feitos pela Associação Nacional dos Transportadores de Cargas indicando que em estrada ruim - esburacada e sem segurança - são perdidos 6% dos produtos agrícolas transportados por caminhões, o gasto em óleo diesel aumenta 50% e, ao final, o custo operacional é acrescido em 40%. Em estrada boa, a conjugação de todos os fatores faz com que um caminhão com cinco eixos (as carretas mais usadas nas safras) tenha ao final um custo operacional reduzido em 13%.
O custo do pedágio é calculado por quilômetro, a R$ 3,50 por eixo do carro em rodovias simples e R$ 4,80 nas duplicadas. Na ligação entre os extremos Oeste e Leste do Estado, de Foz do Iguaçu a Paranaguá pela BR-277 (720 quilômetros), haverá dez praças de pedágio, número considerado excessivo por transportadores, empresários e donos de carros. Heinz Herwig porém observa que ‘‘quanto mais praças, melhor, porque há a diluição do custo, e quem faz trajetos curtos paga menos’’.
‘‘Pedágio pode incomodar, mas não há outra alternativa para modernizar as rodovias’’, garantiu o secretário. Para ele, além disto, ‘‘é preciso considerar as vidas humanas que poderão ser poupadas’’. Pela média, mensalmente morrem 115 pessoas nas rodovias do Paraná. ‘‘Quem viaja constantemente sabe que até hoje, ao final da viagem, tem que ligar para a família para tranquilizá-la, dizendo que conseguiu chegar’’, comentou Herwig. ‘‘Uma só vida poupada justifica tudo o que está sendo feito’’, comentou.
No Oeste também há contestação contra a cobrança de pedágio sem a prévia duplicação das rodovias. Para o trecho Cascavel-Santa Terezinha de Itaipu (desta cidade até Foz do Iguaçu já há pista dupla), ela só ocorrerá em 7 anos, e para Cascavel-Guarapuava não há previsão. Segundo o secretário dos Transportes, a duplicação só se justifica com tráfego acima de 8 mil carros por dia. ‘‘Isso sequer ocorre no trecho Cascavel-Santa Terezinha, por onde trafegam pouco mais de 6 mil carros’’, disse.
Depois de ouvir as explicações do secretário, os prefeitos do Oeste paranaense amenizaram as críticas à cobrança do pedágio, mas os empresários não se convenceram. Eles alegam que o Consórcio Rodovia das Cataratas, que vai explorar o trecho Foz do Iguaçu-Guarapuava, arrecadará R$ 24 milhões por ano com o pedágio, o suficiente para duplicar os 120 quilômetros entre Cascavel e Santa Terezinha de Itaipu em dois anos e meio.
Também é contestada a qualidade das melhorias executadas na pista. O Estado quer constituir logo os conselhos de usuários de rodovias, que avaliarão as obras para, então, autorizar o pedágio.

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