Conselho apura morte de menina
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de março de 1998
Carina Paccola 
A Comissão de Ética do Conselho Municipal de Saúde de Londrina será convocada em caráter de emergência para analisar se houve negligência da Santa Casa no caso da morte da menina Michele Kauana Alves Rodrigues, ocorrida na noite de domingo. A família de Michele acusa a Santa Casa de ter negado atendimento à criança, por não ser paciente particular. A menina, que faria três anos este mês, morreu a caminho do posto de saúde José Belinati (centro da Cidade).
Dulce Silveira, representante dos usuários no Conselho Municipal de Saúde, diz que a entidade vai ouvir os pais da menina. Vamos pedir providências à Promotoria Pública. Este não é o primeiro caso. Vamos apurar o que tem ocorrido nas portas dos hospitais, afirma Dulce.
Por deliberação das últimas duas conferências municipais de saúde, que se realizam a cada dois anos, os hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) são obrigados a atender pacientes do SUS mesmo fora dos plantões. Não devem mais existir os plantões alternados, que criam essa situação de desconforto para a população, que não tem como saber quem está de plantão no dia em que precisa de atendimento médico, diz Dulce. Essa decisão nunca foi acatada pelos hospitais.
Em janeiro deste ano, a Santa Casa recebeu do SUS, por meio do Fundo Municipal de Saúde, R$ 100.570,00 referentes a atendimentos pediátricos. No total, o Fundo pagou R$ 156.680,00 para esse tipo de convênio em janeiro. A parte restante - R$ 56.110,00 - foi destinada ao Hospital Evangélico. Em fevereiro, do total destinado aos atendimentos pediátricos hospitalares - R$ 78.760,00 -, R$ 50.480,00 foram para a Santa Casa e R$ 28.280,00 para o Evangélico.
A diretoria da Santa Casa não quer dar entrevistas. Segundo a assessoria de imprensa, o hospital vai aguardar o resultado do inquérito instaurado no 1º Distrito Policial. O delegado-adjunto do 1º DP, Algacir Antônio Ramos, que preside o inquérito, diz que em 30 dias vai sair o resultado. Ontem, ele ouviu a mãe de Michele, Marinete Bonifácio, e mais duas testemunhas que estiveram com ela na Santa Casa.
O delegado pretende ouvir na sexta-feira o funcionário da Santa Casa que atendeu a mãe com a criança no final da tarde de domingo. O médico e a enfermeira do posto de saúde José Belinati, que atenderam a menina, também serão ouvidos. Algacir Ramos acredita que em 20 dias deve receber o laudo da necrópsia feito pelo Instituto Médico Legal (IML), que vai indicar a causa da morte.
A enfermeira coordenadora do posto de saúde, Selma de Souza Pereira, afirma que Michele chegou ao posto com rigidez de boca, pupilas dilatadas e paradas, temperatura baixa, mãos e pés arroxeados, todos sinais que indicam morte. Mesmo assim, a menina foi entubada e recebeu os procedimentos para reanimação, informa Selma.
A mãe de Michele afirma que chegou a pedir pelo amor de Deus para que a Santa Casa atendesse a filha. Em nota enviada anteontem à imprensa, o hospital afirma que a mãe apenas perguntou aonde poderia levar a menina para ser atendida.


